Além do Mínimo



Domingo sempre tem um ritmo de calmaria, como se a cidade resolvesse respirar mais devagar. O comércio fecha, as ruas ficam mais silenciosas e a gente, em casa, tenta acompanhar esse ritmo mais manso. Foi num domingo assim, desses quase esquecidos no calendário, que a tranquilidade deu lugar à urgência: o antiepilético da minha esposa estava acabando.

Receita já tínhamos. Experiência também. E quando se trata de medicamento de uso contínuo, principalmente com todas as variações possíveis, princípio ativo, dosagem, quantidade de comprimidos, a gente vira quase especialista em combinações. Não é exagero: montar a “equação” certa evita idas desnecessárias ao médico antes da hora.

Abrimos os sites, cruzamos informações, simulamos cenários. Entre uma tentativa e outra, encontramos uma possibilidade viável: a unidade da Drogaria Rosário em Taguatinga Centro parecia ter tudo o que precisávamos. Parecia.

A esposa pediu que eu fosse com ela. Não por acaso, comprar esse tipo de medicamento raramente é simples. Sempre há um “mas”: falta quantidade, não fazem a combinação, interpretam a legislação de forma restritiva ou, quando tudo dá certo, o pagamento resolve falhar. Ir acompanhado é quase uma estratégia de sobrevivência.

Chegamos. Farmácia vazia. Silêncio demais para quem já espera problema. A atendente pegou a receita, foi até o fundo, voltou, digitou alguma coisa no sistema e decretou: não tinha a quantidade.

Naquele instante, pensei: “lá vem”. Argumentei com calma, ou tentando, que havíamos acabado de consultar o site. Mostrei o celular. Ela olhou, ouviu, mas respondeu com uma frase que já parece pronta: “às vezes o site erra”. Perguntei o que aconteceria se tivéssemos comprado online. A resposta veio simples, quase indiferente: “cancelaria a compra”.

Não era só a falta do remédio. Era a falta de alternativa. A ausência de tentativa. A conversa que termina antes mesmo de começar.

Agradeci, afinal educação a gente mantém, mesmo quando a paciência vai embora, e seguimos para outra unidade, no Shopping Felicittá.

Lá, a história começou igual. Receita entregue, consulta ao sistema, mesma resposta: não tinha a quantidade. Mais uma vez, o site contrariava a realidade. Mais uma vez, a explicação: erro do sistema.
Mas foi aí que algo mudou. A atendente, de sobrenome Isshiki, poderia ter encerrado ali, como a anterior. Estaria correta, dentro do procedimento, dentro do script. Mas ela fez uma pergunta simples: “O senhor pode esperar até amanhã?”

E, de repente, surgiu uma luz, e o problema ganhou saída. Ela explicou que poderia solicitar unidades em outras lojas próximas, juntar a quantidade necessária e deixar tudo separado. Pediu meu WhatsApp. Anotou. Se comprometeu.

No dia seguinte, a mensagem chegou: os medicamentos estavam disponíveis. Mais do que isso, ela disse que, nas próximas vezes, poderíamos avisar antes. Que ela já deixaria tudo pronto.

Duas lojas. Mesma rede. Provavelmente o mesmo treinamento, as mesmas regras, o mesmo sistema, inclusive com os mesmos erros. Mas atitudes completamente diferentes. Uma se limitou ao que não dava para fazer. A outra encontrou o que era possível.

E, no fim das contas, é isso que fica. Não o problema, que já esperamos. Nem a falha do sistema, que já conhecemos. Mas o gesto de quem decide ir um pouco além do mínimo.

Porque, às vezes, o diferencial não está no que a empresa ensina, está no que a pessoa escolhe fazer com isso.

Sebastião Marcondes∴
21.04.2026 

A Maçonaria no Velho Oeste, de Alessandro Kardoso




A leitura da vez foi A Maçonaria no Velho Oeste, de Alessandro Kardoso, 169 páginas, uma obra que foge do lugar-comum ao explorar a presença da Maçonaria em um dos cenários mais caóticos da história: o Velho Oeste.

O livro apresenta uma visão desromantizada tanto da fronteira quanto da própria Ordem. Aqui, não há idealizações excessivas: “a história não precisa ser limpa para ser bela, ela precisa ser verdadeira.” E é justamente nessa linha que o autor constrói sua narrativa.

Em meio a cidades sem lei consolidada, onde conflitos eram resolvidos à bala e onde “a moral mudava conforme a necessidade”, a Maçonaria surgia como uma tentativa, nem sempre bem-sucedida, de organizar minimamente a convivência. Reuniões podiam ser interrompidas por tiros, irmãos chegavam embriagados, e ainda assim persistia a ideia de que “não importam as condições locais: havendo irmãos suficientes, a Loja deve ser aberta.”

A obra reforça uma ideia central: “Maçonaria não é feita de mitos, é feita de homens.” Homens imperfeitos, contraditórios, capazes de atos nobres e decisões questionáveis, às vezes no mesmo dia. Nesse contexto, o esquadro e o compasso não representavam uma força civilizadora plena, mas sim “um manual alternativo de convivência”, frequentemente ignorado, às vezes respeitado e, em certos casos, até combatido com violência.

Outro ponto interessante é como o livro aborda o papel da fraternidade em meio ao caos. Mais do que transformar a sociedade, ela parecia atuar nos pequenos espaços: “não mudou o resultado da batalha, mas levou conforto a uma família”. Uma atuação discreta, quase invisível, que fazia diferença longe dos grandes acontecimentos, afinal, “a fraternidade funcionava melhor no rodapé da história, não na manchete.”

O autor também toca em temas como a influência da imprensa, os exageros sobre a Ordem e a constante tensão entre realidade e narrativa: “o exagero costuma dobrar de volume”, transformando homens comuns em figuras quase míticas, ou em alvos de suspeita.

No fim, fica a sensação de que a Maçonaria no Velho Oeste não foi protagonista da história, mas parte do cenário: “apenas parte do cenário e não o roteiro da peça.” Ainda assim, sua presença revela algo importante, mesmo em ambientes hostis, sempre houve quem tentasse construir alguma forma de ordem, aprendizado e convivência.

Uma leitura interessante, especialmente para quem busca uma abordagem mais realista, humana e menos idealizada tanto da história quanto das instituições.

As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf

Gosto muito de história porque acredito que conhecer o passado é uma maneira de entender melhor o presente. Mas também porque, quanto mais l...