O Dia em que Meu Cachorro Virou Presidente (Vinicius Lameira)

 


Rapidinho concluí a leitura de O Dia em que Meu Cachorro Virou Presidente, de Vinicius Lameira. Com apenas 49 páginas, o livro é curto, mas consegue entregar exatamente aquilo que se propõe: uma sátira política divertida, irreverente e repleta de ironias.

A premissa é tão absurda quanto instigante. Rex, um simpático vira-lata, acaba envolvido na corrida presidencial e, para surpresa de todos, é eleito presidente da República. A partir daí, o autor constrói uma sequência de situações cômicas que, por trás do humor, servem para provocar reflexões sobre a política, o comportamento do eleitor e a sociedade brasileira.

O humor é o grande motor da narrativa. Frases como "Rex 2026 – Morde, mas não rouba", "Mais cocô nas calçadas, menos merda no Congresso" e "Era ridículo. Era perfeito. Era Brasil." dão o tom da obra e deixam claro que o exagero é um recurso utilizado para expor contradições bem reais.

O livro, evidentemente cômico, transforma-se imediatamente em objeto das mais diversas interpretações: protesto, manifestação artística ou crítica ao sistema político. O autor aproveita a situação para ironizar não apenas a política, mas também a facilidade com que muitas pessoas atribuem significados grandiosos a qualquer acontecimento.

Por trás da comédia, entretanto, existe uma crítica bastante séria. Em diversos momentos, o livro sugere que Rex não é o verdadeiro protagonista da história. Como o próprio autor escreve, "Rex não foi o erro. Rex foi o espelho." O cachorro passa a representar uma sociedade que muitas vezes prefere o entretenimento ao debate, o espetáculo à responsabilidade e o humor à reflexão.

Essa ideia aparece de maneira especialmente forte quando o autor afirma que "uma nação que ri de tudo, cedo ou tarde, chora por tudo". A frase resume bem o espírito do livro: fazer rir para, logo em seguida, provocar certo desconforto. Afinal, a sátira só funciona porque exagera comportamentos que, em alguma medida, conseguimos reconhecer na realidade.

Apesar do tom crítico, o livro não termina de forma pessimista. Pelo contrário, encerra lembrando que a transformação não depende apenas de grandes líderes ou mudanças espetaculares, mas também das pequenas escolhas de cada cidadão. Como diz um dos últimos trechos da obra, não é preciso mudar o mundo inteiro de uma vez; basta começar pelo próprio quarteirão, pelas atitudes do dia a dia, pela consciência e pelas escolhas individuais.

A leitura também chega em um momento oportuno. Em um ano de eleições presidenciais no Brasil, milhões de brasileiros serão chamados novamente às urnas para escolher os rumos do país. Sem defender candidatos ou ideologias, o livro serve como um convite à reflexão sobre a responsabilidade de cada eleitor. Afinal, mais importante do que rir da sátira é compreender a crítica que ela faz e lembrar que o futuro de uma nação também é construído pelas escolhas conscientes de seus cidadãos.

Recomendo a leitura para quem aprecia sátiras inteligentes e entende que o humor pode ser uma poderosa forma de reflexão. O Dia em que Meu Cachorro Virou Presidente diverte, provoca e chega em um momento especialmente oportuno. Em meio ao debate político que naturalmente acompanha um ano eleitoral, a obra lembra que votar é mais do que escolher um candidato: é assumir responsabilidade pelo futuro coletivo. Ao final, permanece uma pergunta incômoda: será que o verdadeiro absurdo está na ficção... ou na realidade que inspirou essa história?

O Mistério das Águas Termais

 



Concluí a leitura de O Mistério das Águas Termais: Uma investigação de segredos antigos e ameaças invisíveis, de Flávio Dias, um thriller de 242 páginas que reúne suspense psicológico, investigação e ciência em um cenário pouco explorado pela literatura: o universo das águas termais.

A história acompanha Augusto e Wagner em uma investigação que começa de forma quase casual, durante uma viagem pela Europa, mas que rapidamente ganha contornos muito mais complexos. Um medalhão encontrado em uma piscina termal, acontecimentos aparentemente inexplicáveis e pequenos detalhes fazem com que os protagonistas passem a questionar se estão diante de simples coincidências ou de algo muito maior.

Gostei da maneira como o autor constrói o suspense. Em vez de recorrer constantemente a grandes revelações ou cenas de ação, a tensão nasce de pequenos acontecimentos: uma porta que se abre sozinha durante a madrugada, uma gaveta violada, personagens que parecem saber mais do que dizem e uma sucessão de indícios que nunca permitem ao leitor sentir-se completamente seguro sobre o que está acontecendo.

Outro aspecto que me agradou foi o cuidado em não transformar a narrativa em um confronto simplista entre ciência e misticismo. Ao longo da investigação, diferentes interpretações convivem lado a lado. O geólogo, o terapeuta, o comerciante, o morador e o turista observam o mesmo fenômeno, mas cada um lhe atribui um significado diferente. Como observa o próprio livro, uma mesma experiência pode ser explicada pela hidrogeologia, pela fisiologia, pela espiritualidade, pelo marketing ou pela história pessoal de quem a vivencia. Essa multiplicidade de olhares enriquece bastante a narrativa.

Uma das reflexões que mais me chamou a atenção trata justamente da facilidade com que o ser humano atribui significados aos lugares. O autor mostra que ambientes associados ao bem-estar podem despertar expectativas muito diferentes nas pessoas. Alguns procuram cura física, outros buscam paz interior, outros ainda desejam apenas descanso. E, muitas vezes, carregam para esses lugares suas próprias histórias, medos e esperanças.

Também gostei da preocupação ética presente na obra. Em determinado momento, o livro lembra que estados de relaxamento profundo tornam as pessoas mais vulneráveis e que, justamente por isso, ambientes terapêuticos exigem ainda mais responsabilidade de quem neles atua. Em outro trecho, afirma que as grandes rupturas não acontecem quando se discorda dos objetivos, mas quando se passa a justificar meios moralmente questionáveis para alcançá-los. São reflexões que ultrapassam a ficção e permanecem atuais em muitos contextos.

Outro mérito do romance é a ambientação. Ischia, no sul da Itália, deixa de ser apenas um cenário turístico para tornar-se praticamente um personagem da história. As águas quentes, o vapor, as formações vulcânicas e as paisagens naturais criam uma atmosfera permanente de inquietação. A investigação, porém, não se limita à Europa. O autor amplia a trama para outras regiões termais, levando os protagonistas ao Chile e, posteriormente, a Caldas Novas. Também faz referências a cidades do Mato Grosso e a Poços de Caldas, mostrando que o fenômeno das águas termais assume diferentes características geológicas, culturais e humanas. Gostei particularmente dessa abordagem porque estudei durante muitos anos em Poços de Caldas, já passei férias diversas vezes em Caldas Novas e conheço algumas das cidades do Mato Grosso que aparecem na história. Essa familiaridade tornou várias passagens da narrativa ainda mais interessantes. Percebe-se que a mudança de cenários não serve apenas para ampliar a aventura, mas para mostrar que o mistério acompanha diferentes paisagens e diferentes formas de compreender a relação entre a água, a natureza e o ser humano.

Ao final da leitura, tive a impressão de que o verdadeiro tema do livro não são as águas termais, mas a forma como interpretamos aquilo que experimentamos. O próprio autor parece sugerir que os lugares não carregam, por si só, significados ou intenções; somos nós que os revestimos de memórias, crenças, expectativas e narrativas. Como afirma um dos personagens, seria um erro condenar as águas pelo uso que algumas pessoas fazem delas, da mesma forma que seria ingênuo absolvê-las apenas porque são belas.

Por conhecer Flávio Dias, a leitura ganhou ainda uma dimensão adicional. Em diversos momentos, tive a impressão de reconhecer na narrativa interesses, experiências e temas que dialogam com a trajetória do próprio autor. Essa percepção tornou-se ainda mais evidente nas páginas finais, quando ele compartilha informações sobre a pesquisa realizada e sobre elementos que inspiraram a construção da obra. Longe de diminuir a ficção, esse aspecto tornou a narrativa ainda mais interessante.

Recomendo a leitura para quem aprecia thrillers que valorizam mais a construção da atmosfera e das ideias do que o ritmo acelerado da ação. O Mistério das Águas Termais consegue prender o leitor sem abrir mão da reflexão e deixa uma sensação curiosa ao final: talvez existam lugares que não escondam segredos, mas apenas revelem, pouco a pouco, aquilo que já levávamos conosco.


Ernst e Falk: Diálogos para Franco-maçons

 


Concluí a leitura de Ernst e Falk: Diálogos para Franco-maçons, de Gotthold Ephraim Lessing (1729–1781), com 140 páginas, em tradução e edição comentada do Professor Doutor Rui Aurélio de Lacerda Badaró.

Escrito por volta de 1778, o livro apresenta cinco diálogos entre Ernst e Falk, nos quais Lessing procura responder a uma pergunta que continua atual: afinal, o que é a Maçonaria? Em vez de concentrar-se em rituais, símbolos ou graus, o filósofo alemão volta sua atenção para a natureza da instituição, sua finalidade e o papel que ela pode desempenhar na sociedade.

A leitura exige compreender o contexto histórico em que a obra foi escrita. A Alemanha vivia intensos debates políticos, filosóficos e religiosos, e a própria Maçonaria passava por conflitos internos quanto aos seus objetivos e identidade. É nesse ambiente que Lessing constrói seus diálogos, utilizando a conversa entre os dois personagens para discutir temas como liberdade, fraternidade, tolerância e o verdadeiro sentido da Ordem.

O que mais me chamou a atenção foi perceber como muitas das questões levantadas há quase duzentos e cinquenta anos continuam presentes na Maçonaria atual. Lessing questiona se os maçons realmente compreendem a instituição da qual fazem parte, critica aqueles que reduzem a Maçonaria a seus aspectos exteriores e afirma que seus maiores adversários nem sempre são os profanos, mas, muitas vezes, os próprios iniciados que deixam de compreender sua finalidade.

Outro ponto é sua concepção da Maçonaria como um vínculo capaz de unir homens separados por diferenças de religião, classe social e nacionalidade. Para Lessing, a instituição existe para aproximar pessoas que a sociedade insiste em dividir. Levando essa ideia às últimas consequências, ele chega a afirmar que, no dia em que a fraternidade se tornar uma realidade natural entre os homens, a própria Maçonaria terá cumprido sua missão e deixará de ser necessária. É uma reflexão ousada e surpreendentemente atual.

Em determinado momento do diálogo, o autor afirma que os chamados "segredos maçônicos" não podem ser transmitidos por palavras, mas apenas por atos. Essa ideia desloca o foco da curiosidade sobre sinais e cerimônias para aquilo que realmente caracteriza um maçom: sua conduta. Como sugere Lessing, o verdadeiro valor da Maçonaria não está naquilo que ela declara, mas naquilo que seus membros efetivamente realizam.

Um grande mérito desta edição está no trabalho de Rui Aurélio de Lacerda Badaró. Suas notas ocupam boa parte do volume e vão muito além das explicações habituais de um tradutor. Baseadas em extensa pesquisa histórica, elas contextualizam cada diálogo, apresentam personagens, esclarecem referências filosóficas e discutem diferentes interpretações sobre a história da Maçonaria. Em muitos momentos, tive a impressão de estar lendo duas obras complementares: os diálogos de Lessing e um verdadeiro ensaio sobre o Iluminismo, a Maçonaria do século XVIII e o pensamento do próprio autor.

Ao final da leitura, fiquei com a impressão de que Ernst e Falk continua sendo um livro atual justamente porque não oferece definições fechadas. Pelo contrário, convida o leitor a refletir continuamente sobre o propósito da Maçonaria e sobre a coerência entre seus princípios e sua prática. Muitas das críticas e questionamentos formulados por Lessing poderiam perfeitamente ser dirigidos às Lojas contemporâneas.

É uma leitura especialmente para quem deseja refletir sobre a Maçonaria para além do ritual. É uma obra breve, mas densa, que levanta perguntas muito mais importantes do que as respostas que pretende oferecer. E, graças ao excelente trabalho de Rui Badaró, transforma-se também em uma rica oportunidade de conhecer o contexto histórico, filosófico e intelectual em que essas ideias nasceram.


Sebastião Marcondes∴
18.07.2026


Cabo Verde

 


Há pessoas que mudam de cidade, de estado ou de país. Outras parecem apenas trocar de endereço. Onde chegam, criam raízes.

Tenho um grande Irmão que desembarcou em Brasília há mais de vinte anos. Veio para estudar na Universidade de Brasília. Como acontece com tantos estudantes, imaginava que aquela seria apenas uma etapa da vida. Mas Brasília tinha outros planos.

Foi na universidade que conheceu uma jovem estudante. O namoro virou casamento. Vieram os filhos. Vieram os amigos. Vieram os anos. E, sem que percebesse, passou a pertencer a esta terra tanto quanto ao lugar onde nasceu.

Ele aprendeu a amar Brasília, o Brasil e o povo brasileiro. E nós aprendemos a gostar de um pedacinho da terra dele.

Seu português é um capítulo à parte. Correto, elegante e muito bem falado. O sotaque não é de Portugal. Também já não é apenas o de sua terra natal. Há um pouco do crioulo que embala sua infância, um discreto toque do inglês, afinal, é professor desse idioma, e, sobretudo, muito do jeito brasileiro de falar, adquirido ao longo de tantos anos. Talvez seja justamente essa mistura que o torne tão único. Mas não é a maneira como fala que mais chama a atenção. É a maneira como vive.

Nunca o vi reclamar da vida, nem do cansaço. Nunca o ouvi falar mal de alguém. Está sempre alegre, principalmente quando está entre amigos, passeando com sua inseparável custom de guerra ou caminhando ao lado de seu cão. Parece carregar a rara habilidade de encontrar motivos para sorrir sem precisar procurá-los. É caridoso. Participativo. Sempre de pé e à ordem quando alguém precisa.

Quando saímos para comer, ele se serve generosamente da salada. É vegetariano. Nunca, porém, faz cara feia para quem escolheu a picanha ou a linguiça do churrasco. Da mesma forma, não bebe bebida alcoólica, mas, vez ou outra, pede sugestão de uma boa cachaça para presentear o pai, que mora na Alemanha. Há gestos que revelam uma pessoa melhor do que longos discursos.

Outro dia ele me enviou uma reportagem sobre a cidade de Cabo Verde, no Sul de Minas, próxima da minha cidade natal. Ele nem imaginava que dali saiu um dos maiores amigos que a vida me deu. Um amigo que já partiu para o Oriente Eterno justamente na idade que tenho hoje. Mineiro de nascimento, mas dono de um sorriso tão largo que parecia ter sido fabricado na Bahia. Não por acaso, todos o chamavam de Baiano. Gostava de gente, de uma boa conversa e do trabalho bem feito. Era um cabo-verdense que, na alegria de viver, na generosidade e no modo de enxergar a vida, lembrava muito o cabo-verdiano.

Foi uma dessas sincronicidades que a vida distribui sem avisar. Mas foi o futebol que terminou de completar esse mapa de afetos.

Durante a Copa do Mundo, sentei-me diante da televisão para assistir aos jogos de Cabo Verde. A cada partida, era impossível não torcer por aquele pequeno país perdido no Atlântico, entre a África, a Europa e o Brasil. A seleção jogava com coragem, alegria e uma disposição que fazia qualquer brasileiro se identificar.

Aos poucos, parecia que o Brasil inteiro passara a torcer por Cabo Verde. Não apenas pelos resultados, mas pela forma como aquele povo se apresentava ao mundo: simples, lutador, guerreiro e sempre sorrindo, mesmo diante dos maiores desafios.

Enquanto assistia aos jogos, percebi que aquele jeito de ser não me era estranho. Eu o via há muitos anos, quase todas as semanas, na figura daquele meu grande Irmão. E também o havia conhecido, anos antes, naquele amigo cabo-verdense que a vida levou cedo demais. Ambos gostavam de gente, de conversar, do trabalho e da vida. Com os dois aprendi muito, não apenas pelas palavras, mas principalmente pelo exemplo. Talvez seja por isso que hoje eu torça por Cabo Verde como quem torce por um velho amigo. Porque, muito antes de admirar Cabo Verde, tive o privilégio de conhecer um cabo-verdiano e um cabo-verdense.

Sebastião Marcondes∴
04.07.2026

Murphy Tinha Razão

 


Esta é uma obra de ficção. Personagens, gestores, sistemas, arquivos, data, horários, reuniões e acontecimentos foram livremente imaginados por mim. Se o leitor identificar alguma semelhança com fatos reais, talvez a realidade é que tenha perdido o hábito de disfarçar.

Existe uma teoria que nunca vi escrita em lugar nenhum, mas tenho certeza de que ela já foi comprovada milhares de vezes: quando um dia começa dando errado, ele faz questão de mostrar que ainda não atingiu seu potencial.

Naquela manhã, perdi a hora. Antes mesmo de sair de casa, ainda consegui discutir com a esposa. Corri para o ponto de ônibus, justamente a tempo de ver o meu partir. O seguinte atrasou. Quando finalmente chegou, quebrou no caminho. O próximo veio tão cheio que não havia espaço para mais ninguém. Quando enfim consegui chegar ao trabalho, imaginei que dali para frente as coisas começariam a melhorar. Foi exatamente nesse momento que o computador resolveu instalar atualizações. Como se isso não bastasse, naquele dia não havia um único colega por perto para emprestar seu computador para que eu registrasse minha entrada enquanto esperava a boa vontade da máquina.

Quando finalmente consegui acessar os sistemas, encontrei outra surpresa. Meu chefe havia justificado minhas horas extras do dia anterior como se elas tivessem ocorrido por erro meu, por permanecer mais de seis horas seguidas sem registrar a saída. Na verdade, eu havia permanecido trabalhando justamente para resolver problemas de outras pessoas, mas esse detalhe passou despercebido. Antes que eu pudesse digerir isso, veio outra notícia: a plataforma de desenvolvimento que eu utilizava não poderia mais ser usada. A partir daquele dia haveria uma nova. O prazo do projeto, entretanto, permanecia o mesmo, sem levar em conta a curva de aprendizado. Já outro projeto teve justamente o contrário: o prazo foi encurtado.

Como se ainda houvesse espaço para mais alguma coisa, o arquivo indispensável para o funcionamento do sistema, que deveria ter chegado logo pela manhã, simplesmente não apareceu. Restou estudar uma contingência. Passei boa parte da manhã analisando impactos e consequências, conversando com antigos analistas do sistema, até chegar a uma solução. Quando finalmente a encontrei, os responsáveis pela operação do sistema estavam almoçando. Resolvi fazer o mesmo e então descobri que, na correria para pegar o ônibus, havia esquecido a marmita em casa. Como já passava do horário, quase todos os restaurantes próximos estavam fechando. O almoço acabou resumido a alguns salgadinhos.

Ao voltar, o computador estava cheio de mensagens perguntando onde eu estava e por que a solução, que nem sequer havia sido discutida, ainda não tinha sido implantada. Montei a rotina, fiz todos os testes, salvei uma cópia da situação atual para eventual retorno e solicitei a execução. Bastava a autorização do superior. Ele, porém, estava em reunião com o superior dele e não visualizava minhas mensagens. Enquanto isso, outras pessoas perguntavam a todo instante qual era a previsão. Quando a autorização finalmente veio, o processamento começou e permitiu que todos voltassem a trabalhar. Em partes. Ainda havia uma série de rotinas atrasadas que precisavam ser executadas antes do início do registro dos novos negócios. Para minha alegria, outra delas também dependia de autorização. E meu superior continuava na mesma reunião.

Tudo acabou sendo liberado. Tudo processado. Quinze minutos depois, porém, o arquivo que dera origem a toda aquela confusão resolveu chegar. Nova reunião. A decisão foi concluir toda a contingência manual, fazer uma cópia do movimento do dia, excluir o movimento atual, processar o arquivo e, depois, atualizar novamente as movimentações do dia. A rotina automática permanecia parada justamente para evitar duplicidades. Enquanto eu preparava a exclusão do movimento do dia, alguém que não fazia ideia do que estava acontecendo viu o arquivo disponível e a rotina parada. Achando que estava ajudando, colocou o processamento em andamento. Eu não percebi. Procurei meu superior, consegui sua autorização e executei minha rotina. O arquivo terminou de ser processado e, segundos depois, minha rotina, que deveria ter sido executada antes do arquivo, apagou exatamente tudo o que ele havia acabado de produzir.

A primeira pergunta foi inevitável: se tudo foi apagado, o que será atualizado? Felizmente, eu havia feito uma cópia do movimento antes da exclusão. Pelo menos uma decisão acertada naquele dia. Bastava então processar novamente o arquivo. Bastava... O arquivo original já havia sido excluído, porque o próprio sistema cria automaticamente uma cópia com o nome correto. Só que, ao executar novamente a rotina, ela limpou justamente o local onde essa cópia estava armazenada. Resultado: não havia mais o arquivo original, não havia mais a cópia e os dados do dia também tinham desaparecido.

Foi então que alguém lembrou que o arquivo podia ser baixado manualmente em um site. Eram dois gigabytes e cerca de quinze minutos de download. Depois ainda seria preciso descobrir como reenviá-lo para processamento e se minha área de trabalho suportaria um arquivo daquele tamanho. Enquanto isso, meu ponto expirou. Agora era necessário encontrar novamente meu superior para autorizar trabalho além da jornada normal, torcendo para que, no dia seguinte, ninguém viesse pedir explicações. Consegui a autorização, consegui baixar o arquivo e consegui processá-lo. Restava apenas atualizar o movimento do dia. Naturalmente, isso também dependia de nova autorização. Enviei mensagem. Nenhuma resposta. Procurei um superior lateral. Também nada. Depois de alguns minutos, ambos visualizaram as mensagens. Um deles ainda reclamou que não havia nada para liberar.

Veio então a conferência final. A planilha apresentava diferenças em praticamente todos os valores. Por alguns instantes, parecia que nada havia dado certo. Depois percebemos que a única diferença estava no posicionamento das casas decimais. Pela primeira vez naquele dia, tudo realmente estava correto. Ou quase. Ainda era preciso deixar registradas todas as orientações para quem assumiria o trabalho no dia seguinte, alocar as horas trabalhadas do mês nas respectivas demandas e decidir onde lançar as incontáveis horas gastas apagando incêndios dos últimos dias, que certamente não poderiam ser atribuídas aos projetos em desenvolvimento, justamente os projetos que já estavam atrasados.

Antes de sair, conferi duas vezes se havia registrado minha saída. Não cometeria esse erro. Ao olhar o relógio, descobri que o último ônibus já tinha ido embora. Uber? Melhor nem consultar o preço. Restou o metrô, torcendo apenas para que ele não resolvesse quebrar também. Cheguei tarde em casa. Como a discussão da manhã ainda não havia sido esquecida, jantar não fazia parte dos planos. Pensei apenas em descansar um pouco. Foi então que lembrei que, na última briga, ela havia jogado fora justamente aquela cachacinha que eu tomaria para relaxar. Deitei. Afinal, em poucas horas começaria um novo dia. E, depois daquele, aprendi que Murphy tinha razão.

Sebastião Marcondes∴
30.06.2026


As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf

Gosto muito de história porque acredito que conhecer o passado é uma maneira de entender melhor o presente. Mas também porque, quanto mais l...