A máquina que pensa: Jensen Huang, Nvidia e o microchip mais cobiçado do mundo (Stephen Witt)

 


O livro “A Máquina que Pensa: Jensen Huang, Nvidia e o microchip mais cobiçado do mundo”, de Stephen Witt, com 272 páginas, é uma investigação independente sobre a Nvidia, sua trajetória e, principalmente, sobre as pessoas que ajudaram a transformar uma pequena empresa de tecnologia em uma das companhias mais importantes do mundo dos semicondutores e da inteligência artificial.

Stephen Witt reconstrói essa história acompanhando diversos personagens e acontecimentos ao longo de décadas. Jensen Huang aparece naturalmente como figura central, mas o livro não se limita à sua trajetória. O autor mostra as decisões, os acertos, os fracassos, as mudanças de direção e as apostas que fizeram parte da construção da Nvidia.

Em relação a personalidade e o estilo de liderança de Huang, o livro apresenta um executivo extremamente exigente, obcecado por velocidade e por desempenho, capaz de reconhecer quem trabalha bem, mas também conhecido por expor publicamente os erros de seus funcionários. A ideia de que é preciso "compartilhar o fracasso" aparece como parte de sua forma de administrar. Não é exatamente um ambiente de trabalho que parece confortável, e muitos ex-funcionários apontam o burnout como uma das razões para terem deixado a empresa.

A trajetória da Nvidia também mostra que sucesso e planejamento nem sempre caminham juntos. Um dos exemplos mais interessantes é o contraste entre projetos: um produto desenvolvido seguindo as melhores práticas do setor acabou fracassando, enquanto outro, produzido de maneira mais improvisada e arriscada, tornou-se um sucesso. Como resume uma das passagens que marquei: "Às vezes, é preciso apostar com tudo."

Outro ponto interessante é a capacidade de Huang de enxergar oportunidades antes que elas se tornassem evidentes para o mercado. O livro mostra como a Nvidia foi mudando de direção ao longo do tempo, encontrando novos mercados e desenvolvendo tecnologias que inicialmente pareciam pouco promissoras. A visão de que a empresa poderia um dia superar gigantes como a Intel aparece muito antes de isso parecer algo plausível.

A partir daí, a história deixa de ser apenas sobre uma empresa de placas gráficas e passa a acompanhar uma transformação muito maior. A computação paralela, os chips, os data centers e, finalmente, a inteligência artificial vão ganhando espaço na narrativa. O livro mostra como decisões tomadas muitos anos antes acabaram colocando a Nvidia em uma posição privilegiada quando a IA passou a ocupar o centro das atenções.

É justamente nessa parte que a leitura fica ainda mais interessante para quem acompanha a atual revolução da inteligência artificial. O autor apresenta não apenas o entusiasmo em torno dessa tecnologia, mas também as dúvidas e os riscos. Há pesquisadores que imaginam máquinas capazes de superar a inteligência humana, enquanto outros procuram compreender até onde essa evolução pode chegar. Entre as frases que marquei está a provocação de Geoffrey Hinton: "A humanidade é apenas uma fase passageira na evolução da inteligência."

O crescimento da inteligência artificial também aparece associado a um custo físico que muitas vezes fica escondido atrás dos modelos e dos aplicativos: a infraestrutura necessária para fazê-la funcionar. Data centers consomem enormes quantidades de energia, e a expansão dessa infraestrutura passa a criar desafios que vão muito além da tecnologia propriamente dita.

Ao longo da leitura, fica evidente que a história da Nvidia não pode ser explicada apenas por uma boa ideia ou por um único golpe de sorte. Houve erros, mudanças de estratégia, decisões arriscadas, trabalho intenso e, naturalmente, oportunidades que apareceram no momento certo. Uma frase de Huang que resume bem essa combinação: "sorte, mas baseada em visão."

O livro também mostra o lado menos glamoroso do Vale do Silício. Por trás das empresas bilionárias e das tecnologias que transformam o mundo existem pessoas trabalhando em ritmo intenso, disputas, fracassos, ambientes extremamente competitivos e escolhas que nem sempre parecem tão brilhantes quando vistas de perto. A Nvidia é apresentada como uma empresa sem muitos dos confortos encontrados em outras empresas de tecnologia, mas profundamente concentrada em seu trabalho.

No fim, A Máquina que Pensa é menos um livro sobre um chip e mais uma história sobre visão, tecnologia, negócios e pessoas. É também uma tentativa de compreender como uma empresa conseguiu estar no lugar certo quando uma das maiores transformações tecnológicas das últimas décadas aconteceu.

Uma das frases que melhor resume a trajetória apresentada por Stephen Witt é: "A história não se repete, mas muitas vezes rima." E talvez seja justamente isso que torna a leitura interessante: ao acompanhar o passado da Nvidia, conseguimos perceber que o sucesso tecnológico raramente é resultado de uma única decisão brilhante. Ele é construído por uma sequência de escolhas, apostas, erros, persistência e capacidade de perceber para onde o mundo está caminhando.

Para quem se interessa por tecnologia, inteligência artificial, empreendedorismo ou simplesmente por histórias de empresas que conseguiram transformar uma oportunidade em algo muito maior, é uma leitura que vale a pena.

Sebastião Marcondes∴
30.08.2026

Eiro ou ário?

 


Meu pai dizia que eu deveria escolher uma profissão que terminasse em “eiro”. Não sei exatamente de onde vinha essa convicção, mas ele parecia ter uma teoria a respeito. Pedreiro, padeiro, marceneiro, sapateiro, jardineiro, cozinheiro, engenheiro, banqueiro... Havia alguma coisa de sólido nessas profissões, talvez porque quase todas estivessem ligadas a um ofício que se podia enxergar, tocar e reconhecer pelo resultado do trabalho. Eu poderia ter seguido o conselho e me tornado banqueiro. Mas não. Acabei sendo bancário.

Na época, naturalmente, eu não imaginava que uma diferença tão pequena na palavra pudesse render alguma reflexão. Para mim, banqueiro e bancário eram apenas duas palavras para pessoas que trabalhavam em banco, com uma diferença que eu não sabia explicar muito bem. Hoje, entretanto, percebo que meu pai talvez tivesse uma relação muito mais interessante com a língua portuguesa do que eu imaginava. Afinal, existem muitas profissões terminadas em “eiro” e muitas outras terminadas em “ário”, e essa divisão tem uma história.

O curioso é que os dois sufixos têm a mesma origem. Tanto o “-eiro” quanto o “-ário” remontam ao latim -arius. A diferença está no caminho que cada um percorreu até chegar ao português. O “-ário” manteve uma forma mais próxima da latina, por uma evolução erudita, enquanto o “-eiro” resultou da evolução popular da língua, passando por transformações fonéticas ao longo dos séculos. São, portanto, irmãos de origem que acabaram seguindo caminhos diferentes e chegando a lugares bem distintos da nossa língua.

Há outra curiosidade nessa história: a palavra brasileiro. Hoje ela é tão natural que parece ter nascido junto com o país, mas não foi bem assim. Nos primeiros tempos da colonização, “brasileiro” também era usado para designar aquele que trabalhava com o pau-brasil, extraindo e comercializando a madeira. Era, portanto, uma palavra que indicava uma atividade, como tantas outras terminadas em “-eiro”. Só mais tarde ela passou a designar os nascidos no Brasil. Antes de sermos brasileiros por nacionalidade, fomos brasileiros por profissão.

No outro lado estão bibliotecário, secretário, funcionário, comerciário, ferroviário, bancário. Talvez seja apenas impressão minha, mas há alguma diferença de cenário entre elas. O pedreiro chega com sua ferramenta; o bancário, com seu crachá. O primeiro levanta paredes; o segundo trabalha diante de uma tela. Um trabalha com cimento, tijolo e argamassa; o outro com contas, contratos, computadores e, principalmente, dinheiro.

E é justamente aqui que a brincadeira fica melhor, porque dinheiro termina em “-eiro”, enquanto salário termina em “-ário”. Meu pai queria que eu escolhesse uma profissão terminada em “-eiro”. Eu fui ser bancário. Talvez ele estivesse pensando no dinheiro e eu tenha acabado escolhendo o salário.

Não sei se existe alguma sabedoria escondida nisso ou se estou apenas tentando encontrar graça em uma coincidência da língua. Afinal, um pedreiro também pode receber salário, um banqueiro pode viver de salário e um bancário pode acumular dinheiro. As palavras não determinam a vida de ninguém. Mas às vezes elas revelam, sem querer, pequenas histórias sobre a maneira como enxergamos o mundo.

E talvez a palavra mais interessante de todas seja justamente profissão. Hoje costumamos entendê-la simplesmente como aquilo que fazemos para ganhar a vida. Perguntamos a alguém qual é sua profissão quase como perguntamos onde trabalha ou quanto tempo leva para chegar ao trabalho. Mas a palavra carrega uma história muito mais profunda. “Professar” também significa declarar publicamente aquilo em que se acredita. É daí que vem, por exemplo, a expressão “profissão de fé”.

Robert H. Hopcke, em Sincronicidade, lembra que houve uma época em que ter uma profissão possuía um sentido mais completo, quase espiritual: significava dedicar a vida a uma atividade em consonância com um juramento ou com determinados valores. O trabalho podia ser uma declaração daquilo em que alguém acreditava.

Gosto dessa ideia porque ela devolve alguma dignidade a uma palavra que usamos todos os dias sem pensar muito nela. Talvez uma profissão não seja apenas aquilo que fazemos para receber dinheiro no fim do mês. Pode ser também aquilo que escolhemos fazer com uma parte considerável da nossa existência. E, nesse sentido, pouco importa se a palavra termina em “-eiro” ou em “-ário”.

Meu pai queria que eu fosse banqueiro. A vida me fez bancário. Passei longe do conselho sobre o sufixo, mas talvez tenha entendido, com o tempo, aquilo que havia por trás dele. Mais importante do que escolher uma palavra terminada em “-eiro” ou “-ário” é encontrar alguma coisa que dê sentido ao que fazemos enquanto o salário chega e o dinheiro vai embora. Pouco importa se a profissão termina em “-eiro” ou “-ário”; o que importa é não deixar a nossa vida terminar apenas no salário.

Sebastião Marcondes∴
28.08.2026


As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf

Gosto muito de história porque acredito que conhecer o passado é uma maneira de entender melhor o presente. Mas também porque, quanto mais l...