Eiro ou ário?

 


Meu pai dizia que eu deveria escolher uma profissão que terminasse em “eiro”. Não sei exatamente de onde vinha essa convicção, mas ele parecia ter uma teoria a respeito. Pedreiro, padeiro, marceneiro, sapateiro, jardineiro, cozinheiro, engenheiro, banqueiro... Havia alguma coisa de sólido nessas profissões, talvez porque quase todas estivessem ligadas a um ofício que se podia enxergar, tocar e reconhecer pelo resultado do trabalho. Eu poderia ter seguido o conselho e me tornado banqueiro. Mas não. Acabei sendo bancário.

Na época, naturalmente, eu não imaginava que uma diferença tão pequena na palavra pudesse render alguma reflexão. Para mim, banqueiro e bancário eram apenas duas palavras para pessoas que trabalhavam em banco, com uma diferença que eu não sabia explicar muito bem. Hoje, entretanto, percebo que meu pai talvez tivesse uma relação muito mais interessante com a língua portuguesa do que eu imaginava. Afinal, existem muitas profissões terminadas em “eiro” e muitas outras terminadas em “ário”, e essa divisão tem uma história.

O curioso é que os dois sufixos têm a mesma origem. Tanto o “-eiro” quanto o “-ário” remontam ao latim -arius. A diferença está no caminho que cada um percorreu até chegar ao português. O “-ário” manteve uma forma mais próxima da latina, por uma evolução erudita, enquanto o “-eiro” resultou da evolução popular da língua, passando por transformações fonéticas ao longo dos séculos. São, portanto, irmãos de origem que acabaram seguindo caminhos diferentes e chegando a lugares bem distintos da nossa língua.

Há outra curiosidade nessa história: a palavra brasileiro. Hoje ela é tão natural que parece ter nascido junto com o país, mas não foi bem assim. Nos primeiros tempos da colonização, “brasileiro” também era usado para designar aquele que trabalhava com o pau-brasil, extraindo e comercializando a madeira. Era, portanto, uma palavra que indicava uma atividade, como tantas outras terminadas em “-eiro”. Só mais tarde ela passou a designar os nascidos no Brasil. Antes de sermos brasileiros por nacionalidade, fomos brasileiros por profissão.

No outro lado estão bibliotecário, secretário, funcionário, comerciário, ferroviário, bancário. Talvez seja apenas impressão minha, mas há alguma diferença de cenário entre elas. O pedreiro chega com sua ferramenta; o bancário, com seu crachá. O primeiro levanta paredes; o segundo trabalha diante de uma tela. Um trabalha com cimento, tijolo e argamassa; o outro com contas, contratos, computadores e, principalmente, dinheiro.

E é justamente aqui que a brincadeira fica melhor, porque dinheiro termina em “-eiro”, enquanto salário termina em “-ário”. Meu pai queria que eu escolhesse uma profissão terminada em “-eiro”. Eu fui ser bancário. Talvez ele estivesse pensando no dinheiro e eu tenha acabado escolhendo o salário.

Não sei se existe alguma sabedoria escondida nisso ou se estou apenas tentando encontrar graça em uma coincidência da língua. Afinal, um pedreiro também pode receber salário, um banqueiro pode viver de salário e um bancário pode acumular dinheiro. As palavras não determinam a vida de ninguém. Mas às vezes elas revelam, sem querer, pequenas histórias sobre a maneira como enxergamos o mundo.

E talvez a palavra mais interessante de todas seja justamente profissão. Hoje costumamos entendê-la simplesmente como aquilo que fazemos para ganhar a vida. Perguntamos a alguém qual é sua profissão quase como perguntamos onde trabalha ou quanto tempo leva para chegar ao trabalho. Mas a palavra carrega uma história muito mais profunda. “Professar” também significa declarar publicamente aquilo em que se acredita. É daí que vem, por exemplo, a expressão “profissão de fé”.

Robert H. Hopcke, em Sincronicidade, lembra que houve uma época em que ter uma profissão possuía um sentido mais completo, quase espiritual: significava dedicar a vida a uma atividade em consonância com um juramento ou com determinados valores. O trabalho podia ser uma declaração daquilo em que alguém acreditava.

Gosto dessa ideia porque ela devolve alguma dignidade a uma palavra que usamos todos os dias sem pensar muito nela. Talvez uma profissão não seja apenas aquilo que fazemos para receber dinheiro no fim do mês. Pode ser também aquilo que escolhemos fazer com uma parte considerável da nossa existência. E, nesse sentido, pouco importa se a palavra termina em “-eiro” ou em “-ário”.

Meu pai queria que eu fosse banqueiro. A vida me fez bancário. Passei longe do conselho sobre o sufixo, mas talvez tenha entendido, com o tempo, aquilo que havia por trás dele. Mais importante do que escolher uma palavra terminada em “-eiro” ou “-ário” é encontrar alguma coisa que dê sentido ao que fazemos enquanto o salário chega e o dinheiro vai embora. Pouco importa se a profissão termina em “-eiro” ou “-ário”; o que importa é não deixar a nossa vida terminar apenas no salário.

Sebastião Marcondes∴
28.08.2026


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