História é um assunto que me interessa muito, principalmente porque é por meio dela que conseguimos compreender de onde viemos e como chegamos até aqui. Isso vale para a história em geral, mas também para a história da Maçonaria. Conhecer suas origens, seus documentos e as transformações pelas quais passou ajuda a compreender melhor muitos dos símbolos, princípios e práticas que encontramos atualmente em nossos rituais.
Foi com esse interesse que li Manuscritos Góticos, de Mário Soncin Neto, obra de 233 páginas dedicada ao estudo dos antigos documentos maçônicos, conhecidos como Old Charges, Manuscritos Góticos, Antigas Obrigações ou Antigas Constituições. O livro percorre diversos manuscritos medievais e posteriores, mostrando como esses documentos registraram aspectos da organização, das regras, dos costumes e dos valores das corporações de pedreiros e como, ao longo do tempo, contribuíram para a formação da Maçonaria especulativa.
A proposta do autor é particularmente interessante porque permite olhar para a Maçonaria a partir de suas fontes documentais. Em vez de começar pelos rituais que conhecemos atualmente, o livro volta no tempo para procurar os registros que ajudam a compreender como determinadas ideias foram sendo construídas e transmitidas.
Entre os documentos apresentados estão alguns dos mais conhecidos da historiografia maçônica, como o Regius, o Cooke, o Watson, o Sloane 3848, o Grand Lodge No. 1, o Harleiano, o Dowland, o Inigo Jones, o Dumfries e tantos outros. O Regius, tradicionalmente datado de cerca de 1390, mas hoje situado pelos estudos em período posterior, entre aproximadamente 1425 e 1450, é apresentado como o mais antigo manuscrito maçônico conhecido. Já o Cooke, também situado no século XV, destaca a Geometria como ciência primordial.
É justamente nessa sucessão de documentos que está uma das maiores riquezas do livro. Cada manuscrito acrescenta alguma coisa à compreensão desse processo histórico. Alguns apresentam orações cristãs, narrativas sobre a origem da arte de construir e obrigações que deveriam ser observadas pelos integrantes das lojas. Outros acrescentam regras de comportamento, juramentos, exigências para admissão, questões relacionadas à organização das lojas e, com o passar do tempo, elementos cada vez mais próximos de práticas ritualísticas.
Uma das questões que mais me chamou a atenção foi perceber que esses documentos não tratavam apenas de aspectos técnicos do ofício. Havia também uma preocupação bastante evidente com o comportamento daqueles que pertenciam à corporação. Harry Carr, citado na obra, observa justamente essa característica ao destacar que os manuscritos maçônicos procuravam elevar e preservar o caráter moral do trabalhador, indo além de uma simples regulamentação profissional.
Isso ajuda a compreender por que determinados princípios que encontramos hoje na Maçonaria não podem ser vistos simplesmente como criações modernas. Os manuscritos revelam uma tradição na qual trabalho, ética, fraternidade, disciplina e espiritualidade estavam profundamente relacionados. O candidato, por exemplo, não recebia apenas conhecimentos técnicos ao ingressar na corporação: assumia compromissos perante seus irmãos e perante Deus.
Outro aspecto interessante é a presença dos juramentos e das cerimônias de admissão. A partir do século XVI aparecem manuscritos que descrevem a admissão de aprendizes por meio de um rito no qual o candidato colocava a mão sobre a Bíblia e jurava cumprir os encargos apresentados. O Manuscrito de Aberdeen, de 1670, confirma essa prática e determina a leitura da chamada “Carta dos Maçons” na admissão de cada novo membro.
À medida que avançamos pelos manuscritos, também percebemos o desenvolvimento gradual de elementos que hoje reconhecemos nos rituais maçônicos. Há documentos que introduzem juramentos de segredo, exigências quanto ao número de maçons presentes na admissão, perguntas e respostas, referências a graus, desenhos esquemáticos de lojas e outras práticas. O livro mostra essas mudanças não como uma transformação repentina, mas como um processo que ocorreu ao longo de muitos anos.
Essa perspectiva é especialmente importante para compreender a relação entre a Maçonaria operativa e a Maçonaria especulativa. A obra apresenta argumentos segundo os quais não teria ocorrido uma ruptura absoluta entre esses dois universos, mas uma transformação progressiva de práticas, valores e estruturas. As antigas obrigações teriam evoluído para formas ritualísticas mais elaboradas, preservando determinados princípios que já estavam presentes na tradição operativa.
Os manuscritos também ajudam a entender a própria organização das lojas. Alguns funcionavam praticamente como constituições internas. Há registros de lojas que mantinham cópias dos Old Charges como documentos fundamentais para suas reuniões, enquanto outros manuscritos serviam também para registrar membros e reuniões ou como referência para a concessão de graus.
É interessante perceber, portanto, que a palavra “Loja” e a própria estrutura institucional maçônica possuem uma história muito mais complexa do que pode parecer à primeira vista. Em Edimburgo, por exemplo, no século XVII, a loja estava subordinada à Incorporação de Mary’s Chapel, que reunia maçons e carpinteiros.
O livro também apresenta o ambiente social e profissional em que esses documentos surgiram. Os pedreiros medievais não eram apenas trabalhadores que passavam seus dias construindo catedrais. Eram integrantes de organizações que possuíam regras, hierarquias, formas de aprendizagem, mecanismos de controle e relações de solidariedade. Ser admitido em uma guilda significava também adquirir uma nova posição social e um conhecimento especializado que diferenciava o trabalhador dentro da sociedade medieval.
Nesse contexto, a construção das grandes catedrais medievais ganha uma dimensão ainda mais interessante. Havia fé e espiritualidade, mas também planejamento, organização econômica, contratação de trabalhadores e controle financeiro. A construção de um templo envolvia tanto a dimensão espiritual quanto uma estrutura administrativa sofisticada.
Outro ponto que merece destaque é a relação dos manuscritos com as tradições lendárias. Histórias envolvendo Euclides, Salomão, Nimrod, Jabal e outros personagens aparecem associadas à origem da arte de construir. Essas narrativas ajudavam a conferir antiguidade, prestígio e legitimidade ao ofício.
Para mim, esse é um dos aspectos mais interessantes do livro: perceber como a tradição maçônica foi formada pela combinação de diferentes camadas. Há a realidade histórica das corporações de ofício, as regras profissionais, os valores morais, as práticas de admissão e, paralelamente, um universo de narrativas que procurava explicar e dignificar a origem do ofício.
A discussão sobre as origens da Maçonaria também aparece quando o autor aborda pesquisadores como Robert Freke Gould. Gould defendia que as raízes da instituição deveriam ser procuradas principalmente na Europa medieval e nas guildas de construtores, e não em uma suposta transmissão direta dos mistérios egípcios, da tradição templária ou de outras escolas iniciáticas da Antiguidade.
Essa abordagem é importante porque nos leva a separar tradição, lenda e documentação. A Maçonaria possui uma riqueza simbólica extraordinária, mas compreender sua história exige também voltar aos documentos e observar aquilo que efetivamente pode ser encontrado nas fontes.
É justamente aí que vejo o principal mérito de Manuscritos Góticos. O livro não trata os antigos manuscritos apenas como curiosidades históricas, mas procura mostrar como eles ajudam a explicar a formação da própria instituição. Para um maçom, isso permite olhar de outra maneira para palavras, símbolos, números, procedimentos e princípios presentes nos rituais, percebendo que muitos deles possuem uma trajetória histórica muito anterior à Maçonaria especulativa moderna.
Essa foi, para mim, a principal contribuição da leitura. O livro ajudou a transformar nomes de manuscritos que muitas vezes aparecem apenas como referências em uma sequência histórica compreensível. Regius, Cooke, Watson, Sloane, Dumfries e tantos outros deixam de ser simplesmente documentos citados em obras maçônicas e passam a fazer parte de um processo de formação da tradição que chegou até nós.
Minha avaliação é bastante positiva. Gostei da leitura porque ela amplia nossa compreensão da Maçonaria sem depender apenas daquilo que os próprios rituais nos apresentam. Conhecer os documentos que antecederam a Maçonaria especulativa permite perceber que nossa tradição foi sendo construída ao longo de séculos, preservando elementos antigos, mas também incorporando transformações.
Por isso, recomendo Manuscritos Góticos especialmente aos maçons interessados em história e pesquisa maçônica. É uma leitura que exige atenção, mas oferece ao leitor uma oportunidade valiosa de conhecer algumas das fontes que ajudam a explicar de onde vieram muitas das ideias que ainda encontramos na Maçonaria.
Ao terminar o livro, fiquei com uma impressão que considero muito significativa: conhecer as origens dá mais profundidade ao simbolismo da Maçonaria. Quando sabemos um pouco mais sobre o caminho percorrido por uma tradição, conseguimos olhar para aquilo que praticamos hoje com uma compreensão diferente.
Sebastião Marcondes∴
22.09.2026

