O Caminho que os Olhos Não Veem


Todos os dias faço praticamente o mesmo percurso para chegar ao trabalho. Poderia escolher vários ônibus. Alguns fazem o trajeto em menos tempo, outros passam com mais frequência. Ainda assim, quase sempre escolho o mesmo: o 305.1. O horário combina melhor com minha entrada, o ar-condicionado funciona, quase sempre encontro um banco vazio e consigo passar a viagem lendo. Enquanto o ônibus percorre toda a W3 Sul até a Rodoviária do Plano Piloto, as páginas avançam sem que eu perceba os quilômetros.

Poderia descer na rodoviária, mas prefiro descer antes, em frente ao Shopping Pátio Brasil. Dali até o prédio onde trabalho são cerca de quinze minutos de caminhada. Além de evitar a travessia no meio do trânsito, aproveito para caminhar sobre a cidade. Não é uma maratona, mas é o momento do dia em que mais me mexo, o suficiente para lembrar ao corpo que ele nasceu para caminhar. E, de quebra, ganho um tempo que pertence apenas a mim.

O caminho atravessa praticamente todo o Setor Comercial Sul. É pouco mais de um quilômetro em linha reta, largo o suficiente para que centenas de pessoas caminhem sem se esbarrar. A cidade muda de cenário a todo instante. Pequenos trechos ao ar livre, cercados por árvores e pequenas praças, alternam-se com galerias, passagens sob edifícios e escadas que descem suavemente, como se conduzissem a uma segunda cidade escondida sob a primeira. Em alguns pontos, ruas passam por cima desse caminho de pedestres; os carros são poucos e a preferência continua sendo de quem caminha. Talvez por isso seja um caminho que convida a olhar ao redor. Não há esquinas, cruzamentos perigosos nem desvios inesperados. Basta seguir em frente. E há muito o que ver. Os ipês cor-de-rosa anunciam que a seca chegou, colorindo um céu de um azul tão intenso que parece recém-pintado. Os camelôs montam cuidadosamente suas bancas, organizando mercadorias e esperanças para mais um dia de trabalho. Algumas pessoas acordam nas calçadas, recolhem cobertores improvisados e recomeçam uma rotina que ninguém desejaria ter. Outras já estendem a mão, silenciosamente, antes mesmo de a cidade despertar por completo.

Há quase sempre um cachorro caramelo pelo caminho. Talvez não seja o mesmo de ontem nem o de amanhã, mas há sempre um deles. Todos parecem carregar a mesma serenidade. Não latem, não correm atrás de ninguém, não pedem comida. Apenas observam. Enquanto quase todos caminham olhando para uma tela, eles acompanham com os olhos cada pessoa que se aproxima, como se esperassem reconhecer um velho conhecido entre tantos desconhecidos.

Enquanto isso, a multidão segue seu próprio ritual. Centenas de pessoas caminham naquele corredor todos os dias. Algumas seguem apressadas, como se estivessem permanentemente atrasadas. Outras parecem ainda vencer o sono. Há quem carregue um sorriso discreto e quem traga no rosto preocupações que mal cabem dentro do próprio dia. Mas quase todas compartilham o mesmo hábito: caminham sem enxergar. Os olhos permanecem presos à tela do celular, enquanto os pés conhecem o caminho de cor. Passam pelos ipês sem notar as flores. Cruzam os camelôs sem perceber o ritual diário de abrir as bancas. Não enxergam quem passou a noite ao relento. Muito menos o cachorro caramelo que, pacientemente, continua observando pessoas que jamais retribuem o olhar.

Às vezes me pergunto se perceberiam alguma mudança extraordinária naquele percurso. Se um violinista resolvesse tocar em uma das galerias. Se um ipê florescesse em azul. Ou se, de repente, não houvesse mais nenhum cachorro caramelo pelo caminho. Tenho minhas dúvidas. Os pés conhecem o caminho de cor. Os olhos, porém, caminham por outro percurso.

Porque a vida não acontece apenas quando chegamos. Muitas vezes, ela está nesses quinze minutos entre o ponto de ônibus e a porta do trabalho, esperando apenas que alguém levante os olhos.

Sebastião Marcondes∴
26.06.2026


Sincronicidade ou Por que Nada é por Acaso, de Robert H. Hopcke



Terminei a leitura de Sincronicidade ou Por que Nada é por Acaso, de Robert H. Hopcke, uma obra de 284 páginas que explora um tema fascinante: aqueles acontecimentos aparentemente casuais que costumamos chamar de coincidências, mas que, para algumas pessoas, carregam um significado muito mais profundo.

Ao longo do livro, o autor apresenta inúmeros relatos envolvendo amor, trabalho, sonhos, espiritualidade, encontros inesperados e acontecimentos que parecem ocorrer exatamente no momento certo. São experiências que muitos já viveram em algum grau: encontrar a pessoa certa na hora certa, receber uma notícia inesperada em um momento decisivo ou perceber uma sequência de fatos improváveis que acabam alterando o rumo de uma vida.

Hopcke utiliza o conceito de sincronicidade, desenvolvido por Carl Jung, para refletir sobre essas experiências. A questão central não é necessariamente explicar por que elas acontecem, mas compreender por que algumas delas nos parecem tão significativas.

Uma das ideias mais interessantes do livro é que as sincronicidades costumam surgir em momentos de transição. Segundo o autor, muitas vezes esses acontecimentos servem para chamar nossa atenção para mudanças que já estão ocorrendo em nossas vidas, ainda que não tenhamos consciência delas. Como ele observa, algumas vezes os acontecimentos sincronísticos ocorrem justamente quando estamos atravessando uma transformação sem sequer perceber.

O livro também propõe reflexões sobre amor, trabalho e vocação. Em vários momentos, questiona até que ponto escolhemos nossos caminhos ou somos conduzidos por eles. Nós procuramos o trabalho ou o trabalho nos procura? Construímos nossa história ou fazemos parte de algo maior? São perguntas que aparecem repetidamente ao longo da obra.

Em diversos momentos, o livro leva o leitor a uma reflexão ainda mais profunda: até que ponto somos os autores de nossa própria história? Nossas vidas são resultado exclusivo de nossas escolhas ou já existe uma trama maior da qual participamos sem perceber? Somos os protagonistas da narrativa que construímos diariamente ou, em certas ocasiões, personagens na história de outras pessoas? As sincronicidades apresentadas por Hopcke parecem apontar justamente para essa interconexão. Um encontro casual, uma decisão aparentemente insignificante ou uma coincidência improvável podem alterar não apenas o rumo de nossa própria vida, mas também o de inúmeras pessoas ao nosso redor. Nesse sentido, o livro sugere que talvez sejamos, ao mesmo tempo, autores e personagens, escrevendo nossa história enquanto participamos da história dos outros.

O livro também dialoga com uma questão bastante contemporânea: os limites de uma visão exclusivamente racional do mundo. Desde o Iluminismo, aprendemos a confiar cada vez mais na ciência, na lógica e na observação empírica. Hopcke não rejeita essa perspectiva, mas sugere que ela talvez não seja suficiente para explicar toda a riqueza da experiência humana. Afinal, continuamos sendo criaturas que contam histórias, interpretam símbolos e buscam significado para aquilo que vivem.

Em determinado momento, Hopcke afirma que "a vida de todos nós é baseada em contar histórias". De fato, grande parte de nossa identidade é construída a partir das narrativas que criamos sobre nós mesmos, sobre nossas escolhas, nossos sucessos, fracassos, encontros e perdas.

Nos capítulos finais, Hopcke aborda uma questão difícil: como encontrar significado em experiências marcadas pela dor, pela perda e pela morte. O autor não ignora o sofrimento nem tenta suavizá-lo. Pelo contrário, reconhece que nem todas as histórias têm finais felizes e que muitos acontecimentos jamais poderão ser plenamente explicados. Ainda assim, sugere que contar a história do sofrimento pode ser uma forma de dar sentido à experiência vivida. A experiência humana não é feita apenas de conquistas, amores correspondidos e sonhos realizados. Também é construída por perdas, fracassos, despedidas e acontecimentos que jamais compreenderemos completamente. Ao narrarmos essas experiências, transformamos fragmentos dispersos em uma história coerente.

Fechei o livro sem a certeza de que nada acontece por acaso. Talvez essa nem seja a pergunta mais importante. O que o livro me deixou foi outra reflexão: até que ponto somos nós que escrevemos a história de nossa vida e até que ponto a descobrimos à medida que ela acontece? Quando algo inesperado surge em nosso caminho, ignoramos, chamamos de coincidência ou tentamos compreender qual papel aquele acontecimento pode desempenhar na narrativa que estamos vivendo?

Ao final, fiquei com a impressão de que a grande mensagem da obra não está em provar a existência da sincronicidade, mas em lembrar que os seres humanos vivem por meio de histórias e significados. Talvez nunca saibamos se nossas histórias já estavam escritas ou se somos nós que as escrevemos. O que o livro sugere é que a vida é uma trama muito mais ampla do que conseguimos enxergar, na qual somos simultaneamente autores, personagens e, muitas vezes, parte importante da história de outras pessoas.

Mais do que um livro sobre coincidências, é um livro sobre significado.

Sebastião Marcondes∴
23.06.2026

O Livro do Companheiro, de Oswald Wirth



Cheguei ao fim da leitura de O Livro do Companheiro, de Oswald Wirth, obra que dá continuidade natural ao percurso iniciado em O Livro do Aprendiz. Com cerca de 194 páginas, o livro aprofunda temas ligados ao segundo grau da Maçonaria, explorando símbolos, alegorias e reflexões voltadas ao desenvolvimento intelectual, moral e iniciático do Companheiro.

Assim como ocorreu no volume anterior, a leitura exige compreender o contexto em que o autor escreveu. Wirth pertence à tradição simbólica e especulativa da Maçonaria francesa do final do século XIX e início do século XX, período em que muitos autores buscavam interpretar os rituais e símbolos por meio da filosofia, da alquimia, do hermetismo, da cabala e de outras correntes esotéricas. Seu propósito não era produzir uma obra histórica ou acadêmica, mas oferecer instrumentos de reflexão capazes de estimular o aperfeiçoamento interior.

Se O Livro do Aprendiz concentra-se principalmente na preparação do indivíduo, este segundo volume volta-se para a ampliação da consciência e para o desenvolvimento da inteligência iniciática. A pergunta fundamental deixa de ser "De onde viemos?" para tornar-se "O que somos?". A partir dessa mudança de perspectiva, Wirth conduz o leitor por temas como a Estrela Flamejante, a letra G, os cinco sentidos, os cinco degraus, a geometria simbólica, a Quintessência, o Hexagrama e a relação entre o ser humano e o universo.

Um dos aspectos que mais me agradaram foi a forma como o autor procura relacionar o simbolismo maçônico com questões universais. Em diversos momentos, ele convida o leitor a refletir sobre a vida, o conhecimento, a razão, o trabalho e o papel do indivíduo no mundo. Algumas passagens são particularmente marcantes, como quando afirma que "Viver é sinônimo de agir" ou que "o homem comum trabalha para viver, ao passo que o verdadeiro sábio vive para trabalhar". Concorde-se ou não com todas as conclusões apresentadas, é difícil permanecer indiferente às reflexões propostas.

Outro tema recorrente é a importância da formação contínua. Wirth insiste que ninguém se torna verdadeiramente apto apenas pelo desejo ou pela boa vontade. O aperfeiçoamento exige disciplina, método, estudo e perseverança. Nesse sentido, a figura do Companheiro aparece como alguém que já domina os fundamentos da Arte, mas que compreende que ainda há muito a aprender. Como observa o autor, "Ninguém se torna artista apenas porque deseja sê-lo".

Também me chamou atenção a defesa da independência intelectual. Para Wirth, a iniciação não deve formar crentes ou repetidores de fórmulas prontas, mas indivíduos capazes de pensar por si mesmos. Essa ideia aparece de maneira particularmente clara quando afirma que a missão da Maçonaria é formar pensadores independentes, estimulando a iniciativa individual e a reflexão pessoal.

Como ocorre em O Livro do Aprendiz, é importante lembrar que a obra foi escrita por volta de 1900 e reflete os conhecimentos, interpretações e preocupações de sua época. Muitas das explicações históricas, simbólicas ou filosóficas apresentadas por Wirth não correspondem necessariamente ao entendimento atual da pesquisa maçônica. Seu valor reside menos na precisão documental e mais na capacidade de provocar meditação e aprofundamento intelectual.

Também é necessário observar que diversos símbolos, sinais, palavras, marchas e interpretações descritos pelo autor podem diferir daqueles praticados atualmente em muitos ritos e potências maçônicas, inclusive no Rito Escocês Antigo e Aceito praticado na GLMDF. Essas diferenças não devem ser encaradas como erros, mas como parte da diversidade histórica e ritual da própria Maçonaria.

Ao final da leitura, tive a mesma impressão que já havia experimentado com O Livro do Aprendiz: Wirth não pretende fornecer respostas definitivas. Seu objetivo é oferecer matéria para reflexão. Em um dos trechos mais interessantes do livro, ele afirma que o verdadeiro iniciado ensina sem dogmatizar, limitando-se a oferecer elementos para que cada um construa sua própria compreensão. 

Recomendo a leitura especialmente para aqueles que apreciam o estudo do simbolismo maçônico e estão dispostos a refletir sobre temas que ultrapassam os limites do ritual. Mais do que um manual sobre o grau de Companheiro, O Livro do Companheiro é um convite ao estudo, à meditação e ao aperfeiçoamento constante.

E talvez uma das frases que melhor resumam o espírito da obra seja esta:

"Em matéria de conhecimento, a qualidade vale mais que a quantidade. Saiba pouco, mas saiba bem."

Uma lição simples, mas que continua atual mais de um século após ter sido escrita.

Sebastião Marcondes∴
21/06/2026

Alerta Extremo



A noite parecia destinada a terminar da forma mais previsível possível: um pouco de futebol, algum sono no sofá e, depois, cama.

Assisti ao jogo entre Brasil e Haiti. A seleção venceu por 3 a 0, com todos os gols marcados ainda no primeiro tempo. Jogo resolvido cedo. Depois, comecei a acompanhar Turquia e Paraguai. O Paraguai vencia por 1 a 0 quando o sono começou a cobrar seu preço. Primeiro vieram os bocejos. Depois, aquela luta inútil para permanecer acordado no sofá. Percebendo que a derrota era inevitável, desliguei a televisão e fui para a cama.

Uns quinze minutos depois de deitar, quando eu já começava a atravessar a fronteira entre a vigília e o sono, fui arrancado dela por um som estridente. O celular, na cabeceira da cama, disparou um alarme altíssimo. Não era toque de ligação. Não era mensagem. Não era nada que eu já tivesse ouvido antes.

Assustado, peguei o aparelho. Na tela havia uma mensagem. Sem os óculos, porém, consegui entender quase nada. Vi apenas algo relacionado à Defesa Civil. Antes que eu pudesse raciocinar, uma voz feminina, metálica e impessoal, leu o aviso:

– Defesa Civil... misantropi quatro.

Se eu já não havia entendido lendo, compreendi menos ainda ouvindo. Procurei os óculos. Eram exatamente 1h24 da manhã. A mensagem continuava lá:

"Alerta extremo. Defesa Civil: misantropi4."

Li uma vez. Li duas. Li três.

Nada fazia sentido.

Curioso, peguei o próprio celular e pesquisei aquela palavra estranha que jamais havia visto. A resposta apareceu rapidamente:

"Misantropia: aversão ou ódio à humanidade. Falta de sociabilidade. Melancolia. Tristeza. Depressão."

Pronto. Agora eu estava mais confuso do que antes.

Como alguém envia um alerta extremo para milhões de pessoas contendo uma palavra dessas? Por já ter trabalhado com segurança da informação, a hipótese me pareceu óbvia: aquilo provavelmente não era um alerta legítimo. Tudo indicava uma invasão ou falha em algum sistema. Desliguei a tela, virei para o lado e tentei voltar a dormir, torcendo para que nenhum outro aviso resolvesse surgir naquela madrugada.

Mas o sono demorou um pouco mais a chegar.

Aquela palavra ficou rondando meus pensamentos. Misantropia. Ódio à humanidade.

Confesso que tenho dificuldade para compreender esse sentimento. Talvez porque eu sempre tenha procurado caminhar na direção oposta. Estou sempre de pé e à ordem para ajudar a tornar mais feliz a humanidade, ainda que por meio de pequenos gestos, daqueles que quase passam despercebidos no cotidiano.

Fiquei pensando em como alguém chega ao ponto de odiar a humanidade. Talvez seja alguém que só consiga encontrar felicidade na infelicidade alheia. Alguém incapaz de perceber que existe um mundo além de si mesmo. Alguém que, para comemorar um gol, precisa explodir fogos na madrugada ou buzinar sem parar, sem se importar com quem está doente, com os idosos que tentam descansar, com os bebês que finalmente adormeceram ou com os trabalhadores que, em poucas horas, precisarão assumir mais um turno.

Talvez a misantropia não seja apenas odiar a humanidade. Talvez seja agir como se ela não existisse.

Naquela noite, o alerta chegou por engano, por falha ou por invasão. Mas, pensando bem, existem demonstrações de misantropia muito mais frequentes.

E elas não precisam de celular para nos acordar.

Sebastião Marcondes∴
20.06.2026

Projeto Tela

 

A notícia chegou numa segunda-feira.

Era urgente.

Tão urgente que o prazo original de oito meses havia sido reduzido para um mês e meio.

Ninguém entendeu muito bem como algo planejado para oito meses poderia, de repente, precisar ficar pronto em quarenta e cinco dias. Mas questionar a urgência de uma urgência costuma ser visto como falta de espírito colaborativo.

Montaram-se reuniões, criaram-se grupos e convocaram-se especialistas. Pessoas que mal se conheciam passaram a trocar mensagens a qualquer dia e a qualquer hora, como velhos amigos de guerra.

A cada encontro surgiam novas informações. Ou melhor, surgiam pedaços de informações. Quando alguém fazia uma pergunta mais específica, o responsável pelo projeto respondia com sinceridade admirável:

– Preciso estudar esse ponto.

Enquanto isso, os demais trabalhavam.

Mudaram-se processos. Alteraram-se estruturas. Redesenharam-se partes inteiras do sistema. Sábados deixaram de ser sábados. Feriado tornou-se oportunidade. O café passou a ser considerado um alimento.

Curiosamente, aqueles que passavam os dias construindo a solução já começavam a acreditar que o prazo poderia ser cumprido. O responsável pela urgência, entretanto, parecia cada vez mais preocupado. Tão preocupado que já não se limitava às reuniões oficiais. Sempre que conversava com alguém que pudesse contribuir com o projeto, tentava recrutá-lo imediatamente.

Para esse responsável não importava quem coordenava a equipe, quais eram as prioridades estabelecidas ou que outras atividades estivessem em andamento.

Afinal, a situação era crítica. Urgentíssima. Histórica. Nacional, talvez.

Foi então que, numa reunião qualquer, uma frase ficou pairando no ar. Dessas frases que entram por um ouvido e se recusam a sair.

O responsável comentou, quase sem perceber:

– O importante é que esteja disponível em homologação.

A conversa prosseguiu, mas a frase permaneceu sentada à mesa.

Disponível em homologação?

Não em produção?

Não funcionando para os usuários?

Não gerando resultados?

Apenas em homologação?

Alguém pediu uma reunião específica para esclarecer o assunto. Afinal, quando se mobilizam muitas pessoas, sacrificam-se fins de semana e escrevem-se sistemas inteiros, convém saber exatamente qual é o objetivo.

A resposta veio.

Sim.

Bastava que estivesse em homologação.

O sistema seria fotografado.

Uma captura de tela.

Uma imagem.

Um retrato digital.

Essa fotografia seria enviada a alguém para demonstrar que a funcionalidade estava pronta. Pronta, embora ainda não estivesse disponível para uso. Pronta, embora só fosse utilizada em dezembro. Pronta, porque existiria uma tela.

Houve silêncio.

Não o silêncio da concordância.

O outro.

Aquele silêncio que aparece quando a realidade consegue superar a imaginação.

Durante dias, pessoas haviam corrido para produzir uma fotografia.

Não uma funcionalidade em operação.

Não um benefício entregue.

Não um problema resolvido.

Uma fotografia.

Mais tarde, quando chegou o momento de registrar as entregas relevantes do período, surgiu uma dúvida filosófica.

Deveria aquela iniciativa constar na lista de destaques do mês?

Afinal, a funcionalidade não estava em produção. Os usuários não a utilizavam. Nenhum valor havia sido gerado. Nenhum resultado havia sido alcançado.

Mas existia uma foto.

E talvez este seja o verdadeiro espírito de nosso tempo.

Já não importa tanto fazer.

Importa parecer que foi feito.

O sistema ainda não trabalhava.

Mas a fotografia, essa sim, estava pronta dentro do prazo.

Sebastião Marcondes∴
11.06.2026

O Livro do Aprendiz, de Oswald Wirth




 

Terminei a leitura de O Livro do Aprendiz, de Oswald Wirth, uma das obras maçônicas mais conhecidas do final do século XIX e início do século XX.

Ler Wirth exige compreender o contexto em que escreveu. Sua obra nasceu em uma época em que predominava, especialmente na Maçonaria francesa, uma abordagem fortemente simbólica e especulativa. A preocupação principal daqueles autores não era reconstruir historicamente a origem ou a evolução da Ordem, mas extrair ensinamentos filosóficos e iniciáticos de seus símbolos e rituais. Nesse contexto, a busca pelo significado era frequentemente considerada mais importante do que a comprovação histórica.

Oswald Wirth insere-se plenamente nessa tradição. Seu objetivo não era produzir uma obra acadêmica no sentido contemporâneo, mas estimular a reflexão iniciática por meio do simbolismo, da analogia e da interpretação esotérica dos rituais.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é justamente a riqueza de suas interpretações. Wirth convida o leitor a olhar além da literalidade dos símbolos, explorando paralelos com a alquimia, o hermetismo, a cabala, a filosofia e outras tradições iniciáticas. Muitas dessas associações não devem ser entendidas como fatos históricos, mas como ferramentas de reflexão. Concordando ou não com suas conclusões, é difícil passar por suas páginas sem encontrar ideias que provoquem questionamentos e novas formas de enxergar temas já conhecidos.

Outro ponto que chamou minha atenção foi a narrativa sobre as origens da Maçonaria e seu desenvolvimento histórico. Após percorrer diversas tradições e interpretações acerca de sua formação, o autor dedica atenção especial à França, ambiente onde muitas dessas ideias ganharam forma e influência. É importante lembrar que a obra foi escrita por volta de 1900 e, naturalmente, reflete os conhecimentos e interpretações disponíveis em sua época. Embora parte dessas explicações não corresponda necessariamente ao entendimento histórico atual, elas ajudam a compreender como gerações de maçons passaram a interpretar a Ordem.

Como a Maçonaria brasileira foi amplamente moldada no Rito Escocês Antigo e Aceito, consolidado na França, muitas interpretações consideradas tradicionais entre nós foram fortemente influenciadas por autores como Wirth. Em muitos aspectos, sua obra ajudou a formar o simbolismo maçônico que conhecemos hoje.

Porém, é necessário abordar o livro com consciência histórica. Nem todas as afirmações apresentadas refletem o conhecimento atualmente disponível sobre a história da Maçonaria. Muitas delas pertencem ao universo simbólico e filosófico de sua época. O valor da obra está menos na precisão histórica e mais na sua capacidade de estimular o pensamento e a meditação sobre os ensinamentos iniciáticos.

Também é importante lembrar que diversos elementos apresentados por Wirth podem diferir da prática adotada no REAA da GLMDF. Colunas, palavras, sinais, marchas e até a disposição do templo podem variar. Essas diferenças não devem ser vistas como erros, mas como parte da rica diversidade histórica da própria Maçonaria.

Ao final da leitura, fiquei com a impressão de que O Livro do Aprendiz continua sendo uma obra relevante não porque responda a todas as perguntas, mas porque nos convida a formulá-las. O simbolismo apresentado é rico, as reflexões são profundas e as conexões que o autor estabelece entre filosofia, tradição iniciática e desenvolvimento interior tornam a leitura particularmente interessante para quem aprecia o lado contemplativo da Maçonaria.

Recomendo a leitura, especialmente para quem está disposto a manter a mente aberta diante de formas diferentes de interpretar a tradição maçônica. Mais do que um livro de respostas, é um livro de reflexões, e talvez seja justamente essa a sua maior contribuição.

Hélou Môutou (Hello Moto)



O silêncio era perfeito. Daqueles silêncios raros, quase solenes, que parecem ter peso próprio. O padre falava pausadamente. Os fiéis acompanhavam atentos. Alguns rezavam. Outros apenas ouviam. O ambiente convidava ao recolhimento.

Então aconteceu.

— Hélou Môutou!

A voz metálica atravessou a igreja como um raio. O susto foi geral. Durante alguns segundos ninguém soube de onde vinha a interrupção. O proprietário do aparelho, visivelmente aflito, começou uma busca desesperada pelos bolsos da calça, do paletó, da camisa e, possivelmente, de bolsos que nem existiam.

Antes que encontrasse o telefone, a voz retornou.

— Hélou Môutou!

Algumas crianças riram. Alguns adultos tentaram não rir. O padre interrompeu o sermão por um instante e observou a cena com a paciência que só os padres e os professores parecem possuir. Finalmente o aparelho foi localizado e silenciado. A paz voltou ao templo. Pelo menos até a próxima ligação.

Quem nunca presenciou uma cena semelhante? Pode ser numa igreja, numa palestra, num casamento, numa reunião de condomínio, numa audiência ou até num velório. Existe sempre alguém cujo celular resolve anunciar sua existência justamente no momento em que deveria permanecer invisível. Curiosamente, isso não acontece porque as pessoas sejam mal-educadas. Acontece porque a tecnologia foi entrando em nossas vidas devagarinho, sem pedir licença, até ocupar praticamente todos os espaços.

Primeiro ela era uma ferramenta. Depois virou uma comodidade. Mais tarde tornou-se uma necessidade. Hoje, para muitos, é quase uma extensão do próprio corpo.

E o mais curioso é que não faz muito tempo que o problema nem sequer existia. Durante milhares de anos a humanidade viveu sem telefones celulares. E sobreviveu. Aliás, viveu sem telefones, sem computadores, sem internet e sem energia elétrica. Houve um tempo em que as noites eram iluminadas por velas, lampiões e lamparinas. Quando a eletricidade começou a chegar às cidades, muita gente desconfiou da novidade. Alguns consideravam aquela luz artificial fria e impessoal. Outros acreditavam que os antigos costumes desapareceriam.

Desapareceram mesmo.

Mas ninguém sente saudades de procurar uma vela no escuro toda vez que falta energia.

A mesma história se repetiu inúmeras vezes. As penas deram lugar às canetas. As canetas dividiram espaço com as máquinas de escrever. As máquinas de escrever foram substituídas pelos computadores. As cartas perderam terreno para o e-mail. O telefone fixo perdeu espaço para o celular. Em cada uma dessas transformações houve resistência. Sempre aparece alguém para dizer que a novidade é exagerada, desnecessária ou perigosa. Curiosamente, alguns anos depois, a mesma pessoa não consegue mais viver sem ela. Talvez porque o ser humano seja assim: resiste à mudança até descobrir uma forma de tornar-se dependente dela.

Não faz tanto tempo que a comunicação seguia outro ritmo. Quem quisesse falar com alguém fazia uma ligação. Antes disso, escrevia cartas. Mais antigamente ainda, precisava esperar dias ou semanas por uma resposta. Havia demora, havia distância e havia silêncio.

Hoje carregamos no bolso um aparelho mais poderoso do que os computadores que levaram o homem à Lua. Com ele enviamos mensagens instantâneas, realizamos reuniões, assistimos vídeos, pagamos contas, consultamos mapas, fotografamos o almoço e discutimos política com desconhecidos às duas da manhã. Tudo isso sem sair do sofá. A tecnologia resolveu muitos problemas e criou outros tantos.

Outro dia ouvi a história de uma senhora de noventa anos que pediu aos filhos um celular. Preocupados em facilitar sua adaptação, compraram um aparelho simples, com teclas grandes, visor grande e som alto. Poucos dias depois ela deixou o aparelho cair e ele quebrou. Antes de comprar outro, um dos filhos lembrou que tinha um smartphone guardado numa gaveta e resolveu presenteá-la.

A senhora examinou o aparelho por alguns instantes, abriu um sorriso e perguntou:

— Agora posso ter WhatsApp?

A família caiu na gargalhada. Mas a pergunta dizia muito sobre o mundo em que vivemos. A tecnologia deixou de ser um privilégio dos jovens. Ela pertence a todos. Entrou na vida das crianças, dos adultos, dos idosos e até daqueles que juravam nunca precisar dela.

O curioso é observar como fomos aprendendo a usar os aparelhos sem aprender a conviver com eles. Basta entrar em qualquer restaurante. Há mesas inteiras ocupadas por pessoas que saíram juntas para conversar e passam boa parte do tempo olhando para telas diferentes. Pais observam os filhos pelo celular. Filhos observam os pais pelo celular. Amigos sentados lado a lado trocam mensagens com pessoas que estão a quilômetros de distância enquanto ignoram quem está a poucos centímetros. Nunca estivemos tão conectados. Nunca pareceu tão difícil prestar atenção em quem está presente.

O problema não está no celular, nem no aplicativo, nem na internet. O problema começa quando a ferramenta passa a controlar o dono; quando os risquinhos azuis provocam ansiedade; quando uma notificação interrompe uma conversa; quando uma refeição vira sessão de fotos; quando um grupo de mensagens produz mais ruído do que comunicação; quando alguém acredita em qualquer notícia apenas porque ela chegou pelo telefone.

A energia elétrica não tem culpa se esquecemos de contemplar as estrelas. A caneta não tem culpa pelos erros ortográficos. O computador não tem culpa pelos textos mal escritos. E o celular não tem culpa quando interrompe uma cerimônia religiosa. A verdade é que as ferramentas continuam sendo apenas ferramentas. Nós é que mudamos nossa relação com elas.

Criamos máquinas capazes de aproximar pessoas que estão em continentes diferentes, mas às vezes esquecemos de conversar com quem está sentado ao nosso lado. Recebemos informações em segundos, mas nem sempre encontramos tempo para refletir sobre elas. Estamos permanentemente conectados e frequentemente distraídos.

Talvez a verdadeira evolução tecnológica não esteja nos aparelhos que inventamos, mas na sabedoria necessária para utilizá-los. Afinal, desligar o celular durante uma cerimônia não exige inteligência artificial. Responder uma mensagem algumas horas depois não provoca o fim do mundo. E conversar olhando nos olhos continua sendo uma tecnologia extraordinária: antiga, confiável e, curiosamente, fora de moda.

Mas, pensando bem, talvez daqui a cinquenta anos alguém escreva uma crônica lamentando que os implantes neurais interrompem os cultos religiosos com propagandas personalizadas. E então nós, nostálgicos, diremos:

— Na minha época era melhor, o celular só tocava "Hélou Môutou".


Sebastião Marcondes∴
08/06/2026

 

As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf

Gosto muito de história porque acredito que conhecer o passado é uma maneira de entender melhor o presente. Mas também porque, quanto mais l...