O Caminho que os Olhos Não Veem


Todos os dias faço praticamente o mesmo percurso para chegar ao trabalho. Poderia escolher vários ônibus. Alguns fazem o trajeto em menos tempo, outros passam com mais frequência. Ainda assim, quase sempre escolho o mesmo: o 305.1. O horário combina melhor com minha entrada, o ar-condicionado funciona, quase sempre encontro um banco vazio e consigo passar a viagem lendo. Enquanto o ônibus percorre toda a W3 Sul até a Rodoviária do Plano Piloto, as páginas avançam sem que eu perceba os quilômetros.

Poderia descer na rodoviária, mas prefiro descer antes, em frente ao Shopping Pátio Brasil. Dali até o prédio onde trabalho são cerca de quinze minutos de caminhada. Além de evitar a travessia no meio do trânsito, aproveito para caminhar sobre a cidade. Não é uma maratona, mas é o momento do dia em que mais me mexo, o suficiente para lembrar ao corpo que ele nasceu para caminhar. E, de quebra, ganho um tempo que pertence apenas a mim.

O caminho atravessa praticamente todo o Setor Comercial Sul. É pouco mais de um quilômetro em linha reta, largo o suficiente para que centenas de pessoas caminhem sem se esbarrar. A cidade muda de cenário a todo instante. Pequenos trechos ao ar livre, cercados por árvores e pequenas praças, alternam-se com galerias, passagens sob edifícios e escadas que descem suavemente, como se conduzissem a uma segunda cidade escondida sob a primeira. Em alguns pontos, ruas passam por cima desse caminho de pedestres; os carros são poucos e a preferência continua sendo de quem caminha. Talvez por isso seja um caminho que convida a olhar ao redor. Não há esquinas, cruzamentos perigosos nem desvios inesperados. Basta seguir em frente. E há muito o que ver. Os ipês cor-de-rosa anunciam que a seca chegou, colorindo um céu de um azul tão intenso que parece recém-pintado. Os camelôs montam cuidadosamente suas bancas, organizando mercadorias e esperanças para mais um dia de trabalho. Algumas pessoas acordam nas calçadas, recolhem cobertores improvisados e recomeçam uma rotina que ninguém desejaria ter. Outras já estendem a mão, silenciosamente, antes mesmo de a cidade despertar por completo.

Há quase sempre um cachorro caramelo pelo caminho. Talvez não seja o mesmo de ontem nem o de amanhã, mas há sempre um deles. Todos parecem carregar a mesma serenidade. Não latem, não correm atrás de ninguém, não pedem comida. Apenas observam. Enquanto quase todos caminham olhando para uma tela, eles acompanham com os olhos cada pessoa que se aproxima, como se esperassem reconhecer um velho conhecido entre tantos desconhecidos.

Enquanto isso, a multidão segue seu próprio ritual. Centenas de pessoas caminham naquele corredor todos os dias. Algumas seguem apressadas, como se estivessem permanentemente atrasadas. Outras parecem ainda vencer o sono. Há quem carregue um sorriso discreto e quem traga no rosto preocupações que mal cabem dentro do próprio dia. Mas quase todas compartilham o mesmo hábito: caminham sem enxergar. Os olhos permanecem presos à tela do celular, enquanto os pés conhecem o caminho de cor. Passam pelos ipês sem notar as flores. Cruzam os camelôs sem perceber o ritual diário de abrir as bancas. Não enxergam quem passou a noite ao relento. Muito menos o cachorro caramelo que, pacientemente, continua observando pessoas que jamais retribuem o olhar.

Às vezes me pergunto se perceberiam alguma mudança extraordinária naquele percurso. Se um violinista resolvesse tocar em uma das galerias. Se um ipê florescesse em azul. Ou se, de repente, não houvesse mais nenhum cachorro caramelo pelo caminho. Tenho minhas dúvidas. Os pés conhecem o caminho de cor. Os olhos, porém, caminham por outro percurso.

Porque a vida não acontece apenas quando chegamos. Muitas vezes, ela está nesses quinze minutos entre o ponto de ônibus e a porta do trabalho, esperando apenas que alguém levante os olhos.

Sebastião Marcondes∴
26.06.2026


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