Livro 45 Minutos do Primeiro Templo

 



Terminei a leitura de 45 Minutos do Primeiro Tempo, de Patrick Santos. Um livro relativamente curto, com cerca de 140 páginas, escrito em linguagem simples, direta e bastante pessoal.

Patrick atuava como executivo de comunicação e âncora do programa político 3 em 1, da Jovem Pan, quando decidiu interromper o ritmo acelerado da carreira para viver um período sabático. O título do livro faz justamente essa analogia com o futebol: aos 45 anos, ele resolveu “descer para o vestiário”, fazer uma pausa e repensar os rumos da própria vida.

A obra gira em torno dessa necessidade de parar e refletir sobre o sentido do que estamos fazendo. Em um dos trechos, Patrick escreve sobre a importância de “parar e refletir sobre o sentido do que estamos fazendo”, algo que parece simples, mas que muitas vezes deixamos de lado enquanto seguimos presos à rotina.

O livro toca bastante nessa sensação moderna de vida mecânica: “levamos a vida profissional no piloto automático sem nos darmos conta do eixo que nos orienta” . E talvez seja justamente aí que a obra encontra sua força, não em respostas extraordinárias, mas em perguntas comuns que quase todo mundo evita fazer.

Outro aspecto interessante é a reflexão sobre identidade. Patrick comenta que o mundo material acaba nos aprisionando de tal forma que passamos a buscar sentido não dentro de nós, mas no cenário que construímos ao redor . Isso dialoga diretamente com a preocupação constante com imagem, desempenho e validação social.

Há também trechos bastante humanos e sinceros, especialmente quando ele fala sobre solidão, culpa, relações familiares e frustrações pessoais. O livro ganha ainda mais força quando aborda a ausência do pai e o impacto emocional que isso teve em sua formação. Em determinado momento, ele reconhece que tentou se tornar o homem que imaginava que o pai deveria ter sido, um dos trechos mais honestos e fortes da obra.

Gostei particularmente de uma observação simples, mas muito verdadeira: “Antes de conhecer o mundo, deveríamos conhecer o bairro onde moramos” . Em tempos de excesso de informação, metas e hiperconexão, talvez realmente estejamos cada vez mais distantes das pequenas coisas ao nosso redor.

Não é um livro transformador nem revolucionário, mas também não parece ter essa pretensão. Sua proposta é mais modesta: provocar pequenas pausas e algumas reflexões sobre o rumo da vida, o peso da rotina e o valor do tempo.

E talvez isso, hoje em dia, já seja bastante coisa.

A Máquina de Achar Diferenças



Meu primeiro emprego foi aos onze anos de idade.

Hoje isso soa quase absurdo, mas naquela época não era raro. Eu estudava de manhã, na quinta série, e à tarde trabalhava em um escritório de contabilidade como office boy. Na prática, eu era uma mistura de mensageiro, carregador de documentos, auxiliar de arquivo e corredor oficial da cidade.

Era uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, cercada por um mar de montanhas. Não existia caminho reto. A cidade inteira parecia feita de subidas e descidas, como se alguém tivesse desenhado as ruas acompanhando o humor das serras.

O escritório ficava no centro. Então, dependendo do dia, eu seguia para o lado sul da cidade, andando cinco quilômetros. Em outros, ia para o norte, sete quilômetros de caminhada. Hoje, com Google Maps, dá até para traçar e medir exatamente os caminhos que eu fazia. Naquele tempo, a gente media distância pelo cansaço das pernas.

Andava sob sol forte, chuva, poeira e pressa. Passava em empresas entregando guias de impostos e recolhendo documentos, principalmente notas fiscais de entrada. Também ia a bancos, prefeitura, cartórios e outros escritórios de contabilidade. Tudo a pé. Não existia aplicativo, celular ou mensagem instantânea. O documento precisava chegar fisicamente às mãos de alguém, e quase sempre quem levava era um menino magro carregando uma pasta debaixo do braço.

Nos dias em que eu ficava no escritório, o serviço mudava, mas a lógica era a mesma: conferir, organizar, carregar.

Não existia computador. Havia pilhas de papel, livros contábeis enormes, formulários intermináveis e calculadoras de bobina que cuspiam metros de fita de papel como se fossem recibos de uma fábrica de números.

Às vezes me entregavam um punhado de documentos para somar. Eu fazia tudo uma vez. Depois fazia de tudo novamente. O resultado precisava bater exatamente igual. Quando não batia, começava a caça ao erro.

Era nesse momento que aparecia a famosa “máquina de achar diferenças”.

O trote era clássico nos escritórios da época. Mandavam algum novato até outro escritório, geralmente a mais de um quilômetro dali, pedir emprestada a tal máquina. Assim que o sujeito saia, alguém telefonava para o outro escritório avisando da brincadeira.

Do outro lado preparavam uma caixa pesada, normalmente com uma pedra dentro.

Quando o novato aparecia, recebia a encomenda com toda a seriedade do mundo:

– Cuidado… essa máquina é muito cara e sensível. Não balance e nem deixe cair.

A pessoa voltava andando devagar, segurando a caixa como quem transportava um equipamento da NASA. Só descobria o golpe quando chegava ao escritório. Às vezes eram ainda mais cruéis:

– Ah… já achamos a diferença. Pode devolver a máquina.

Eu nunca caí nesse trote. Talvez porque eu fosse novo demais e tenham ficado com dó. Ou talvez porque office boy aprende cedo a desconfiar da humanidade.

Mas engraçado mesmo é pensar que, décadas depois, a máquina de achar diferenças acabou existindo.

E sou eu!

Hoje trabalho cercado de sistemas, arquivos, integrações e bancos de dados. Quando aparece alguma divergência entre informações, começa a investigação. Passo horas executando queries nas mais diversas tabelas, cruzando dados, conferindo registros, tentando encontrar exatamente onde nasceu o problema.

Muitas vezes eu já sei que o erro não foi gerado nos sistemas pelos quais sou responsável. Mas não adianta apenas dizer isso. É preciso provar.

Então lá vou eu outra vez.

Só que agora não caminho quilômetros pela cidade. Caminho por tabelas, logs, relacionamentos e consultas SQL.

A diferença é que antes eu carregava pastas de documentos debaixo do braço. Hoje carrego a responsabilidade de encontrar aquilo que não fecha.

No fundo, mudou a tecnologia, mas o trabalho continua o mesmo. Continuo fazendo o mesmo serviço daquele menino de onze anos: achar diferenças nos números.


Sebastião Marcondes∴

07.05.2026


Freakonomics: o Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta



Concluí a leitura de Freakonomics: o Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta, de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, 254 páginas. A proposta do livro parecia bastante promissora: revelar conexões ocultas por trás de comportamentos humanos, incentivos e fenômenos sociais aparentemente comuns.

E, de fato, existem momentos interessantes.

O problema é que, pelo menos para mim, essas boas ideias aparecem diluídas em capítulos excessivamente longos e repetitivos. O livro pega alguns exemplos curiosos e os estende por páginas e páginas, insistindo no mesmo ponto muito além do necessário. Em vários momentos tive a sensação de que a obra poderia ser significativamente menor sem perder conteúdo relevante.

Além disso, há uma quantidade considerável de trechos que parecem mais preenchimento do que desenvolvimento real. Parte do material são compilações de textos de blog ou extensões pouco necessárias de assuntos que já haviam sido suficientemente explicados.

Ainda assim, algumas reflexões realmente chamam atenção.

Uma delas é a ideia de que incentivos moldam o comportamento humano de formas muitas vezes desconfortáveis. O livro mostra, por exemplo, que “quando o trabalho escasseia, os médicos tentam impingir procedimentos mais caros”, explorando como interesses econômicos podem interferir em decisões aparentemente técnicas.

Outro ponto interessante é a observação de que “quem trapaceia? Ora, praticamente todo mundo, se a oportunidade for propícia.” A obra trabalha bastante a ideia de que sistemas de incentivo inevitavelmente criam tentativas de fraude, afinal, “para cada pessoa inteligente que se dê ao trabalho de bolar um esquema de incentivo, existe um exército de outras [...] tentando fraudá-lo.”

Também achei interessante a discussão sobre assimetria de informação, especialmente no caso dos corretores imobiliários, cuja função muitas vezes é negociar interesses opostos simultaneamente. Ou ainda a famosa teoria da janela quebrada, segundo a qual pequenos problemas ignorados acabam incentivando problemas maiores, porque transmitem a sensação de ausência de controle e de limites.

O livro tenta mostrar que muitos comportamentos sociais têm menos relação com moralidade abstrata e mais com incentivos, oportunidades e contexto. Essa abordagem é provocativa e rende reflexões interessantes.

No entanto, apesar das boas sacadas, a leitura acabou não me empolgando tanto quanto eu esperava. Eu imaginava encontrar mais revelações surpreendentes e análises realmente transformadoras. Em vez disso, encontrei algumas ideias muito boas cercadas por excesso de exemplos, repetições e alongamentos desnecessários.

Não é um livro ruim, mas talvez funcione melhor como uma coletânea de conceitos curiosos do que como uma leitura profundamente impactante.

Album incompleto


Eu fui criança e, como toda criança, colecionei figurinhas.

Teve Copa em que elas vinham dentro do chiclete. A gente comprava sem nem pensar duas vezes: queria completar o álbum. Passávamos o dia mascando chicletes, sem pressa de acabar, como gado ruminando, mesmo que, de brinde, viessem cáries ou uma gastrite precoce.

Depois de algum tempo, surgia o inevitável: um monte de figurinhas repetidas. Era aí que começava o verdadeiro jogo. Trocávamos no recreio, negociávamos como pequenos comerciantes, ou partíamos para o “bafo”, onde a sorte decidia quem levava o montinho. Nem sempre terminava bem, lembro de discussões, empurrões e até amizades abaladas por causa de um jogador difícil de achar.

Naquele tempo, as dificuldades eram tantas que até cola virava improviso: tinha menino que fazia a própria, em casa, com farinha e água, para conseguir colar as figurinhas no álbum. Hoje, elas já vêm prontas, adesivas, não é mais preciso inventar nada.

Havia também os que tinham mais dinheiro. Esses queriam o álbum completo a qualquer custo. Compravam mais, trocavam menos, e às vezes olhavam com certa superioridade para quem ainda colecionava espaços em branco. Ainda assim, completar um álbum era quase um milagre coletivo. Quase ninguém conseguia.

Hoje, olhando para o álbum da Copa, vejo que ele tem 980 “cromos”, um nome mais elegante para aquilo que sempre foi, no fundo, a mesma figurinha. Cada envelope, com sete unidades, custa sete reais. Fazendo as contas mais otimistas, e irreais, seriam 980 reais para completar o álbum sem repetir nenhuma. Mas ninguém escapa das repetidas.

O valor real é outro. Mais alto. Muito mais alto. Um preço difícil para muitas famílias. Ainda assim, as crianças vão pedir. Vão insistir, espernear, sonhar com o álbum completo. E muitos pais, alguns tão crianças quanto os filhos, vão ceder.

E, para dar conta da brincadeira, talvez economizem onde não deveriam. Menos dentista, mais figurinhas. No fim das contas, o álbum pode até não ficar completo, mas as cáries, essas, vêm garantidas.

Sebastião Marcondes∴
02.05.2026

O Grande Livro da Maçonaria, de Claudio Blanc



Terminei a leitura de O Grande Livro da Maçonaria (192 páginas), de Claudio Blanc, um livro que busca reunir, em um único volume, um amplo conjunto de informações sobre a Maçonaria, sua história, seus símbolos e suas possíveis conexões com outras tradições.

A impressão que fica ao longo da leitura é que o livro foi construído a partir de uma extensa compilação de fontes. Em muitos momentos, parece o trabalho de alguém que não necessariamente vivencia a Maçonaria por dentro, mas que pesquisou diversos materiais para montar um panorama geral. Isso resulta em uma obra rica em referências, mas nem sempre coesa.

O autor percorre desde as origens das corporações de construtores, destacando que “o foco da Maçonaria, seu objetivo primeiro, é o Homem”, até a transição para a Maçonaria especulativa, passando por influências filosóficas, simbólicas e históricas. Há espaço para Pitágoras, tradições antigas, ordens diversas e até episódios históricos mais amplos, o que amplia o escopo do livro, mas também o afasta, em certos momentos, de um foco mais claro.

Esse é, talvez, o principal ponto da obra: ela extrapola a Maçonaria. Em vários trechos, o conteúdo avança para outras ordens, correntes filosóficas e interpretações que nem sempre têm relação direta com a prática maçônica. Isso pode enriquecer a leitura para quem busca um contexto mais amplo, mas também pode gerar dispersão.

Outro aspecto é a irregularidade no nível de profundidade. Há temas tratados de forma bastante superficial, enquanto outros recebem um detalhamento maior do que o necessário. Conceitos importantes aparecem, como a progressão simbólica dos graus aprendizes que, com o tempo e experiência, tornam-se companheiros e depois mestres, mas nem sempre são desenvolvidos de maneira equilibrada.

O livro também reforça o caráter simbólico e filosófico da Ordem, lembrando que “os símbolos inspiram e ensinam” e que o conhecimento maçônico é construído de forma gradual, ao longo do tempo. Ainda assim, essa riqueza simbólica aparece misturada a interpretações e associações que nem sempre são necessárias para a compreensão do tema central.

No fim, O Grande Livro da Maçonaria funciona mais como uma coletânea ampla do que como uma obra estruturada e aprofundada. Pode ser interessante para quem deseja um primeiro contato com diversos aspectos históricos e simbólicos, mas talvez não seja a melhor escolha para quem busca clareza, foco ou profundidade consistente.

Seguimos nas leituras, algumas organizam o pensamento, outras apenas o expandem.

As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf

Gosto muito de história porque acredito que conhecer o passado é uma maneira de entender melhor o presente. Mas também porque, quanto mais l...