Meu primeiro emprego foi aos onze anos de idade.
Hoje isso soa quase absurdo, mas naquela época não era raro. Eu estudava de manhã, na quinta série, e à tarde trabalhava em um escritório de contabilidade como office boy. Na prática, eu era uma mistura de mensageiro, carregador de documentos, auxiliar de arquivo e corredor oficial da cidade.
Era uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, cercada por um mar de montanhas. Não existia caminho reto. A cidade inteira parecia feita de subidas e descidas, como se alguém tivesse desenhado as ruas acompanhando o humor das serras.
O escritório ficava no centro. Então, dependendo do dia, eu seguia para o lado sul da cidade, andando cinco quilômetros. Em outros, ia para o norte, sete quilômetros de caminhada. Hoje, com Google Maps, dá até para traçar e medir exatamente os caminhos que eu fazia. Naquele tempo, a gente media distância pelo cansaço das pernas.
Andava sob sol forte, chuva, poeira e pressa. Passava em empresas entregando guias de impostos e recolhendo documentos, principalmente notas fiscais de entrada. Também ia a bancos, prefeitura, cartórios e outros escritórios de contabilidade. Tudo a pé. Não existia aplicativo, celular ou mensagem instantânea. O documento precisava chegar fisicamente às mãos de alguém, e quase sempre quem levava era um menino magro carregando uma pasta debaixo do braço.
Nos dias em que eu ficava no escritório, o serviço mudava, mas a lógica era a mesma: conferir, organizar, carregar.
Não existia computador. Havia pilhas de papel, livros contábeis enormes, formulários intermináveis e calculadoras de bobina que cuspiam metros de fita de papel como se fossem recibos de uma fábrica de números.
Às vezes me entregavam um punhado de documentos para somar. Eu fazia tudo uma vez. Depois fazia de tudo novamente. O resultado precisava bater exatamente igual. Quando não batia, começava a caça ao erro.
Era nesse momento que aparecia a famosa “máquina de achar diferenças”.
O trote era clássico nos escritórios da época. Mandavam algum novato até outro escritório, geralmente a mais de um quilômetro dali, pedir emprestada a tal máquina. Assim que o sujeito saia, alguém telefonava para o outro escritório avisando da brincadeira.
Do outro lado preparavam uma caixa pesada, normalmente com uma pedra dentro.
Quando o novato aparecia, recebia a encomenda com toda a seriedade do mundo:
– Cuidado… essa máquina é muito cara e sensível. Não balance e nem deixe cair.
A pessoa voltava andando devagar, segurando a caixa como quem transportava um equipamento da NASA. Só descobria o golpe quando chegava ao escritório. Às vezes eram ainda mais cruéis:
– Ah… já achamos a diferença. Pode devolver a máquina.
Eu nunca caí nesse trote. Talvez porque eu fosse novo demais e tenham ficado com dó. Ou talvez porque office boy aprende cedo a desconfiar da humanidade.
Mas engraçado mesmo é pensar que, décadas depois, a máquina de achar diferenças acabou existindo.
E sou eu!
Hoje trabalho cercado de sistemas, arquivos, integrações e bancos de dados. Quando aparece alguma divergência entre informações, começa a investigação. Passo horas executando queries nas mais diversas tabelas, cruzando dados, conferindo registros, tentando encontrar exatamente onde nasceu o problema.
Muitas vezes eu já sei que o erro não foi gerado nos sistemas pelos quais sou responsável. Mas não adianta apenas dizer isso. É preciso provar.
Então lá vou eu outra vez.
Só que agora não caminho quilômetros pela cidade. Caminho por tabelas, logs, relacionamentos e consultas SQL.
A diferença é que antes eu carregava pastas de documentos debaixo do braço. Hoje carrego a responsabilidade de encontrar aquilo que não fecha.
No fundo, mudou a tecnologia, mas o trabalho continua o mesmo. Continuo fazendo o mesmo serviço daquele menino de onze anos: achar diferenças nos números.
07.05.2026

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