Saiu agora uma pesquisa, um estudo que vem sendo feito desde 2007, intitulado "Retratos da Leitura no Brasil". Eles estão preocupados em mapear os hábitos de leitura dos brasileiros das mais diversas classes sociais e grupos etários. E, pela primeira vez na história, tem mais gente não lendo do que lendo. O dado que chocou todo mundo nas últimas semanas foi que 53% dos brasileiros não pegaram nenhum livro para começar a ler. Porque a gente sabe que terminar um livro é outra história. Agora, nem começar a ler, nem se aventurar ali um pedacinho desse livro, chocou boa parte dos especialistas. Isso é fruto dessas transformações todas que a gente tem vivido nos últimos tempos. São quase 7 milhões de leitores a menos quando comparamos com os dados de 2019.
Esse hábito faz parte da maneira como a gente inventa nossa conexão com o mundo, da forma como a gente aprende e se relaciona com os outros. Também falando sobre os assuntos que temos lido, temas que têm nos chamado atenção, as explicações são muitas. Fernando, sobretudo, o que está em jogo aí não é só uma queda do hábito da leitura, mas também uma transformação do hábito de ler. Tenho certeza de que eu, você e os nossos ouvintes lidamos com palavras no formato escrito com muito mais volume do que as outras gerações faziam. Porque, com o celular no bolso, boa parte do nosso processo de interação com as tecnologias é dado pelo hábito de leitura. Você abre um site, tem lá sempre um texto, você abre o seu WhatsApp, boa parte das mensagens são em texto, você manda mensagem, você está escrevendo e lendo sempre, ou está se informando via texto escrito. Só que a gente precisa chamar atenção que texto escrito é muito diferente de leitura.
E junto disso, acho que sai o convite para chamar a atenção dos brasileiros para a importância da leitura como hábito, não só para deixar você mais sabido, aparecendo aí andando de um canto a outro, falando dos livros que leu, mas também como a leitura é fundamental na construção do nosso processo cognitivo e na nossa relação com o mundo de uma forma geral. O primeiro ponto aqui, que é importante, é a ideia de que a leitura é uma experiência compartilhada. Quando lemos um livro, lemos um livro que foi publicado e esse livro foi compartilhado com outras tantas pessoas que também são leitores daquele autor. Na medida em que você compartilha leitura com os outros, você tem a possibilidade de construir uma experiência junto dos outros também sobre aquilo que você está lendo. A leitura compartilhada dá vínculo nosso com a sociedade, com o grupo de uma forma geral.
Há um outro aspecto também importante que a gente não pode esquecer: a leitura nos deu a possibilidade de ter a voz de outro dentro da nossa cabeça. Segundo Roger Chartier, que é um historiador da leitura, no século XIII ou XIV começamos a desenvolver a leitura silenciosa. Antes, a gente lia junto, na igreja, na escola, aonde fosse, as pessoas tinham o hábito de ler junto dos outros. Quando você começa a ler individualmente, desenvolve algo que é simples, mas muito transformador para o nosso processo cognitivo, porque você traz outra voz para dentro da sua cabeça.
Então, quando estou lendo, sei lá, Machado de Assis, estou com a voz do Machado de Assis, que já morreu, dentro da minha cabeça. Quando você está lendo, sei lá, "Torto Arado" do Itamar, você está com a voz do Itamar e dos personagens do Itamar dentro da sua cabeça. Isso é revolucionário em termos cognitivos, porque todo mundo aqui já acordou de manhã cansado de si mesmo. A leitura permite que você se livre de você mesmo, porque você coloca outra voz na sua cabeça, outro ritmo, outro conjunto de palavras que você não está acostumado. Além da possibilidade de expandir o nosso vocabulário, que é algo mais da literatura, temos a chance de ter outra pessoa dentro da gente. Isso é revolucionário? Isso muda a vida mesmo.
Há um terceiro ponto também: as pessoas acham que para ser bom escritor você precisa ler demais, mas esquecem que para falar bem, você também precisa ser um grande leitor. Não porque você vai aprender palavras que as pessoas comumente não estão usando, mas porque você aprende outras formas de contar as mesmas coisas de outros modos. O que faz um bom narrador é quando você consegue olhar para a mesma realidade e ver coisas que os outros não estão vendo. Essa elasticidade do contar é tão importante hoje porque é isso que engaja na rede social, no Stories, no LinkedIn, no Tinder. A capacidade que temos de contar histórias que engajam os outros está diretamente relacionada a essa elasticidade do contar. E essa elasticidade do contar exige que você lide com outras narrativas.
Toda vez que você lê, você aprende uma nova forma de falar, uma nova forma de contar, uma nova forma de narrar. Isso não tem outro meio que vai te dar. Os livros e a leitura de uma forma geral, essa leitura mais alongada, não se resume a uma mensagem de texto. Eles nos dão esse poder. E quando perdemos isso, obviamente ficamos mais empobrecidos, não só na maneira como pensamos o mundo, mas na maneira como enxergamos o mundo e nos conectamos com os outros. É uma transformação enorme.
O mais doido é que estamos lendo menos e achando que há mais obstáculos para conseguir dar conta da leitura. Mas o pessoal está mais confortável em dizer que não gosta de ler. O que chocou dessa vez foi que 46% dos entrevistados ou não gostavam nada de ler ou diziam que gostavam mais ou menos, mas muito menos do que mais. Quais são os obstáculos que estão dados aí? O primeiro ponto são as tecnologias. Eu e você, que somos leitores frequentes, sabemos que se deixarmos o celular do lado, é um inferno, né? Deixe o celular longe, não dá para ler com o celular perto. Desista, então eu deixo em outro cômodo da casa.
Esse é um ponto importante, mas acho que há dois aspectos também decisivos na criação de obstáculos para a leitura. O primeiro é que estamos deixando de achar que a leitura é um caminho fundamental, a plataforma principal do aprendizado. Há muitos cursos e pessoas querendo ensinar coisas complexas de um jeito fácil através de outras mídias. Então, o livro deixou de ter esse lugar de território do saber, aonde vamos para aprender alguma coisa. Ele também perdeu espaço como território do lazer, disputando cada vez mais com outros lugares. Com muito estímulo lado a lado com as tecnologias e sem a ideia de que ler é lazer e de que ler é o único caminho para saber, os livros foram perdendo espaço.
O que acontece com a sociedade que não lê? Emburrece, né? Para ser muito claro. E não estou falando no sentido de não saber, não estou falando de emburrecimento com viés moral. Estou falando de emburrecimento porque fica mais restrita a uma mesma forma de se conectar com o mundo. Estamos aqui no mundo para expandir nossas formas de pensar, falar e se conectar com o mundo. Então, toda vez que você abre um livro, você expande sua narração, sua cognição, a maneira como se conecta com os outros. Gente que não lê fica assim, mais limitada, sem nenhum viés moral.
Um ponto também importante, sobretudo quando olhamos para as escolas, é que temos que começar lendo coisas que gostamos para depois ler coisas que os outros acham que vamos gostar. Acho que a escola cumpre o papel dela, dando a leitura que acredita ser boa no ciclo pedagógico. Mas em casa, temos que estimular que as crianças criem o hábito da leitura. Primeiro, temos que criar o hábito da leitura para depois ler aquilo que precisa ser lido, os clássicos ou o que for. Acho que você tem que começar gostando de ficar sentado e entrando nessa viagem de você com você mesmo, e depois ler aquilo que precisa ser lido. Obrigar-se a ler coisas que não gosta, acreditando que isso vai criar o hábito da leitura, é quase nadar contra a maré. Não faz nenhum sentido. Precisamos primeiro ler coisas que fazem parte do nosso cotidiano e que nos interessam. Depois, podemos buscar alternativas e sofisticar essa leitura. Um leitor acostumado a ler cansa daquilo que é plástico, descartável em termos de literatura, porque fica repetitivo. As formas são as mesmas. A sofisticação no campo da leitura se dá pelo próprio amadurecimento. Antes de ser leitor de boas coisas, precisamos virar leitores. Então, o caminho é ler coisas de entretenimento, biografias de celebridades, qualquer coisa. E depois você vai avançando.
Na minha casa era assim: meu pai era mega restritivo em termos de consumo. Eu dizia: "Pai, quero o tênis da moda, a calça da moda." Ele dizia: "Não temos dinheiro." Mas para livros nunca teve limite. A gente podia comprar quantos livros quisesse. Isso foi formando o leitor em mim, né? Eu fui virando leitor por conta disso também. E eu acho que uma casa tem que ter livros, porque a gente esquece, mas você lê por osmose também. Pode parecer brincadeira, mas uma casa com muitos livros, mesmo que esses livros não tenham sido lidos, já gera um estímulo para a leitura, porque a curiosidade é a mola mestra da nossa interação com o mundo. Então, mesmo tendo livros na tua casa que você não leu, se você não é um pai leitor, mas quer fazer filhos leitores, compre livros e deixe lá, que uma hora eles vão brincar com isso.
O preço dos livros está caro? Se você for numa padaria um pouquinho mais metida a besta, em São Paulo, duas pessoas gastam muito mais do que o preço de um livro. Eu entendo que o preço do livro é abusivo, sobretudo levando em consideração a realidade social. Mas eu acho que não é o principal impeditivo. A gente tem gastado tanto mais com outras coisas. Acho que precisamos pensar no que a leitura é capaz de fazer por nós, e eu tenho dito isso: é a única coisa que vai sobrar para a gente diante do avanço da tecnologia. Humanização. E não tem coisa melhor para humanizar qualquer um de nós do que a leitura.
Texto extraído do podcast “Pra Onde Vamos”, de Michel Alcoforado, episódio de 28.11.2024, “Brasil enfrenta queda na leitura enquanto debate a importância do hábito para o desenvolvimento”, disponível em https://cbn.globo.com/podcasts/michel-alcoforado-pra-onde-vamos/

