As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf



Gosto muito de história porque acredito que conhecer o passado é uma maneira de entender melhor o presente. Mas também porque, quanto mais lemos, mais percebemos que aquilo que aprendemos nem sempre representa toda a história. As Cruzadas Vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf, com 367 páginas, foi uma leitura que me proporcionou justamente essa experiência: conhecer acontecimentos por um ângulo diferente e descobrir informações que eu não conhecia.

Gostei bastante do livro. Antes de começar a leitura, imaginava que encontraria principalmente a versão árabe das Cruzadas, contrapondo-se àquela que tradicionalmente conhecemos no Ocidente. Encontrei algo mais interessante. Embora a perspectiva seja a dos árabes, o autor não se limita aos europeus que invadiram a região nem concentra toda a atenção em Saladino, a figura muçulmana mais conhecida desse período. Ele apresenta uma história mais ampla, com diferentes personagens, disputas políticas, conflitos internos e consequências que ajudam a compreender a complexidade daqueles acontecimentos.

Amin Maalouf, escritor de origem libanesa, reconstrói esse período recorrendo a relatos de historiadores árabes medievais. Os cruzados são chamados de franj, denominação utilizada pelos árabes para identificar os francos e, de maneira mais ampla, os ocidentais que chegaram à região. Acompanhamos sua chegada, os cercos, as conquistas, os massacres e as tentativas de resistência dos governantes muçulmanos.

Uma das coisas de que mais gostei foi perceber que o mundo árabe não aparece como um bloco unido, enfrentando um inimigo comum. Havia rivalidades entre governantes, disputas pelo poder e divisões religiosas que dificultavam a formação de uma resistência conjunta. Os conflitos entre sunitas e xiitas, cujas origens remontam aos primeiros tempos do Islã, também faziam parte desse cenário.

Isso me chamou a atenção porque torna a história mais real. Não havia apenas dois lados perfeitamente definidos, cada um agindo de acordo com um objetivo comum. Havia interesses particulares, alianças que mudavam conforme as circunstâncias e governantes que precisavam escolher entre combater os invasores e enfrentar seus próprios rivais. Uma das frases que marquei resume bem essa situação: “Para sobreviver, é preciso apostar no cavalo certo e não teimar em apostar sempre no mesmo.”

Os relatos de violência também me impressionaram. O capítulo “Os canibais de Maarate” apresenta episódios particularmente brutais, mostrando até onde a guerra e o fanatismo podiam chegar. São passagens difíceis de ler, mas importantes para compreender como os acontecimentos foram vividos por aqueles que sofreram as invasões. Ao mesmo tempo, o livro não esconde as divisões e os problemas internos do mundo muçulmano.

Talvez seja por isso que a leitura me tenha parecido equilibrada. Não tive a impressão de estar diante de uma simples inversão da história, na qual os europeus passam a ser os vilões e os árabes, os heróis. O autor recupera a perspectiva de quem normalmente aparece menos nas narrativas ocidentais, sem reduzir os acontecimentos a uma disputa entre bons e maus. Para mim, esse é um dos méritos da obra.

Saladino tem seu espaço, naturalmente, mas não é o único protagonista. Outros governantes e líderes também participam dessa história, e suas decisões ajudam a explicar os avanços e os recuos na luta contra os cruzados. Achei interessante, inclusive, acompanhar o que aconteceu depois da morte de Saladino: o império foi dividido, e a unidade que ele havia conseguido construir não resistiu às disputas sucessórias. É um lembrete de que conquistar algo e conseguir preservá-lo são desafios muito diferentes.

Outro ponto que me agradou foi conhecer melhor a contribuição árabe para o desenvolvimento cultural e científico europeu. O livro mostra como os europeus aprenderam com os árabes em áreas como medicina, matemática, astronomia, química e arquitetura. Palavras como álgebra, algoritmo, azimute e cifra são vestígios dessa influência que permanecem até hoje em nosso vocabulário.

Eu não conhecia, ou não tinha dimensão suficiente, de muitos desses aspectos. Por isso, essa parte foi especialmente enriquecedora. Estamos acostumados a estudar as Cruzadas como expedições militares e conflitos religiosos, mas o contato entre essas sociedades também envolveu a circulação de conhecimentos, técnicas e produtos. A história não se resume aos campos de batalha, e as relações entre os povos produzem consequências que vão muito além das intenções daqueles que participaram dos conflitos.

Uma das minhas principais marcações foi a frase: “Cada um conhece a visão dos seus e ignora a dos outros.” Ela me parece sintetizar muito bem o sentido da leitura. Muitas vezes, conhecemos os acontecimentos pela versão transmitida por nossa própria cultura e acabamos sem perceber o que eles significaram para os outros envolvidos.

Foi justamente isso que encontrei neste livro. Não se trata apenas de conhecer o que os árabes pensavam dos cruzados, mas de perceber como um mesmo acontecimento pode adquirir significados completamente diferentes conforme o lugar de onde é observado. Aquilo que para um lado representa uma conquista ou uma missão religiosa, para o outro pode significar invasão, destruição e humilhação.

Essa reflexão me parece muito atual. Embora o livro trate de acontecimentos medievais, a dificuldade de compreender o ponto de vista alheio continua presente. Quando cada lado se fecha em sua própria interpretação, sem procurar entender a experiência do outro, fica muito mais difícil superar ressentimentos e evitar novos conflitos.

As Cruzadas Vistas pelos Árabes foi, portanto, uma leitura que me agradou tanto pelo conteúdo histórico quanto pela oportunidade de ampliar minha visão sobre um período que eu conhecia apenas parcialmente. O livro não mudou meu interesse pelas Cruzadas; ao contrário, tornou o assunto ainda mais interessante, justamente porque me apresentou informações e perspectivas que eu desconhecia.

Recomendo a leitura a quem gosta de história e quer conhecer algo além da versão tradicionalmente apresentada no Ocidente. Não é necessário concordar com todas as interpretações do autor para reconhecer o valor de conhecer outras fontes e perspectivas. No meu caso, terminei o livro com a sensação de ter aprendido bastante e de compreender melhor a complexidade daquele período.

Afinal, uma das coisas que mais valorizo na leitura de livros de história é justamente essa: descobrir que ainda há muito a conhecer sobre acontecimentos que imaginávamos já compreender. E, às vezes, basta mudar o ponto de vista para perceber que a história era bem maior do que conhecíamos.

Sebastião Marcondes
23.10.2026

Um relógio para lembrar o tempo



Havia um tempo em que a gente não precisava olhar para o relógio para saber que horas eram. Bastava ouvir o sino. Na minha infância, o único relógio que realmente importava era o da igreja. Relógio de pulso era coisa rara, celular nem existia e, para saber as horas, não era preciso carregar nada no bolso. O sino cuidava disso.

Ele tocava nas horas cheias e também a cada meia hora, das seis da manhã às dez da noite. Depois disso, o silêncio era mais importante que a pontualidade. Afinal, ninguém precisava saber que eram onze horas se, para descobrir, fosse necessário acordar a vizinhança inteira. Mas o sino era muito mais que um relógio. Durante séculos, ele foi uma espécie de voz da comunidade. Antes de existirem telefones, alto-falantes, rádio ou qualquer outra forma rápida de comunicação, era por meio dele que a igreja falava com a cidade. Seu som podia chamar para a missa, anunciar uma morte, celebrar uma festa, comunicar uma alegria ou marcar um momento de oração.

Por isso, cada toque tinha seu significado. Havia o sino do luto, o da alegria, o da paz, o das horas e o da consagração. Quem conhecia seus sons não precisava de explicações. Bastava ouvir para saber que alguma coisa estava acontecendo. O sino também tinha algo de democrático: sua voz alcançava todos. Não importava se a pessoa estava dentro da igreja, em casa, trabalhando ou caminhando pela rua. O som atravessava portas, quintais e distâncias e chegava a todos. Era uma mensagem sem destinatário específico, porque pertencia à comunidade inteira.

Na escola, o sino também mandava. Era ele que avisava a hora de entrar e, principalmente, a hora de ir embora. E isso era uma informação que ninguém ignorava. Uma vez, alguém “roubou” o sino e resolveu tocá-lo antes da hora. Foi o suficiente. O sino tocou, os alunos ouviram e todos saíram. Ninguém perguntou se era realmente a hora. Se o sino tinha tocado, era porque estava na hora de ir embora. A autoridade do sino não precisava de confirmação.

Não vou contar aqui como conseguiram devolver o sino. Digamos apenas que a história não terminou exatamente como começou. Muitos colegas acabaram expulsos daquela escola. Algumas histórias da infância ficam melhores quando a gente deixa uma parte delas guardada.

E eu também tinha meus momentos de responsabilidade com os sinos. Era coroinha e sempre errava justamente na consagração. Não ajudava em nada o fato de eu ter certo medo dos padres Teodoro ou Bertoldo, que tinham vindo da Holanda. Havia momentos em que eu deveria saber exatamente quando tocar, mas, entre a responsabilidade, o nervosismo e o receio de fazer alguma coisa errada diante deles, o sino parecia ter muito vida própria.

Para nós, o sino era quase um relógio de precisão. Se alguém perguntasse as horas, ninguém respondia com minutos e segundos, porque ninguém tinha como saber. A resposta era mais ou menos assim: “Agora pouco bateu três horas.” Ou: “Já, já vai bater quatro.” E estava resolvido. O tempo não precisava ser exato. Bastava estar próximo.

Hoje, quando passo pela praça de Taguatinga, encontro ali outro marcador do tempo: o relógio da praça. Ele foi doado a Brasília, em dezembro de 1970, pelo presidente da Citizen Watch Co. Mas parece que o relógio não conseguiu se misturar às obras da nova capital. Talvez porque Brasília, dizem, não tenha horas. Tem planos, projetos, inaugurações, monumentos e até eixos, mas hora mesmo, só o do ponto de trabalho na minha empresa. Assim, o relógio acabou renegado para Taguatinga.

Tem quatro faces, para que ninguém possa dizer que não teve oportunidade de acertar a hora. Ainda assim, as quatro parecem viver em tempos diferentes. É difícil encontrar todas marcando a hora correta ao mesmo tempo. O relógio já foi reformado em 2008 e novamente em 2025, mas, pelo jeito, algumas coisas não se consertam com reforma ou mudanças. E o mais curioso é que, mesmo em tempo de eleição, nunca ouvi candidato prometer que vai acertar o relógio da praça. Talvez porque até promessa de campanha tenha limite.

Passo por aquela praça todos os dias há quinze anos. E todos os dias olho para o relógio. Não para saber as horas. Se eu quisesse saber as horas, provavelmente consultaria o celular, que hoje carrego no bolso como se fosse uma pequena central de controle do universo. Olho para o relógio porque ele me leva de volta para um tempo em que o tempo tinha outro ritmo.

Talvez seja por isso que aquele relógio, mesmo quase nunca acertando a hora, consiga acertar tanto a minha memória. Ele me lembra uma época em que o tempo não vinha de uma tela iluminada, nem vibrava dentro do bolso. Vinha de uma torre, em ondas sonoras, e era compartilhado por todos.

O relógio da praça pode até estar errado. Para mim, entretanto, ele está sempre marcando alguma coisa. Marca a infância, marca a escola, marca a igreja, marca os sinos. Marca aquele mundo em que sabíamos que o dia estava passando porque, de meia em meia hora, uma voz de bronze atravessava a cidade e dizia que o tempo continuava andando.

Talvez seja por isso que eu ainda olhe para aquele relógio todos os dias. Não quero saber que horas são. Quero apenas lembrar de quando, para saber, bastava esperar o sino tocar.

Sebastião Marcondes∴ 02.10.2026

Manuscritos Góticos (Mário Soncin Neto)

 




História é um assunto que me interessa muito, principalmente porque é por meio dela que conseguimos compreender de onde viemos e como chegamos até aqui. Isso vale para a história em geral, mas também para a história da Maçonaria. Conhecer suas origens, seus documentos e as transformações pelas quais passou ajuda a compreender melhor muitos dos símbolos, princípios e práticas que encontramos atualmente em nossos rituais.

Foi com esse interesse que li Manuscritos Góticos, de Mário Soncin Neto, obra de 233 páginas dedicada ao estudo dos antigos documentos maçônicos, conhecidos como Old Charges, Manuscritos Góticos, Antigas Obrigações ou Antigas Constituições. O livro percorre diversos manuscritos medievais e posteriores, mostrando como esses documentos registraram aspectos da organização, das regras, dos costumes e dos valores das corporações de pedreiros e como, ao longo do tempo, contribuíram para a formação da Maçonaria especulativa.

A proposta do autor é particularmente interessante porque permite olhar para a Maçonaria a partir de suas fontes documentais. Em vez de começar pelos rituais que conhecemos atualmente, o livro volta no tempo para procurar os registros que ajudam a compreender como determinadas ideias foram sendo construídas e transmitidas.

Entre os documentos apresentados estão alguns dos mais conhecidos da historiografia maçônica, como o Regius, o Cooke, o Watson, o Sloane 3848, o Grand Lodge No. 1, o Harleiano, o Dowland, o Inigo Jones, o Dumfries e tantos outros. O Regius, tradicionalmente datado de cerca de 1390, mas hoje situado pelos estudos em período posterior, entre aproximadamente 1425 e 1450, é apresentado como o mais antigo manuscrito maçônico conhecido. Já o Cooke, também situado no século XV, destaca a Geometria como ciência primordial.

É justamente nessa sucessão de documentos que está uma das maiores riquezas do livro. Cada manuscrito acrescenta alguma coisa à compreensão desse processo histórico. Alguns apresentam orações cristãs, narrativas sobre a origem da arte de construir e obrigações que deveriam ser observadas pelos integrantes das lojas. Outros acrescentam regras de comportamento, juramentos, exigências para admissão, questões relacionadas à organização das lojas e, com o passar do tempo, elementos cada vez mais próximos de práticas ritualísticas.

Uma das questões que mais me chamou a atenção foi perceber que esses documentos não tratavam apenas de aspectos técnicos do ofício. Havia também uma preocupação bastante evidente com o comportamento daqueles que pertenciam à corporação. Harry Carr, citado na obra, observa justamente essa característica ao destacar que os manuscritos maçônicos procuravam elevar e preservar o caráter moral do trabalhador, indo além de uma simples regulamentação profissional.

Isso ajuda a compreender por que determinados princípios que encontramos hoje na Maçonaria não podem ser vistos simplesmente como criações modernas. Os manuscritos revelam uma tradição na qual trabalho, ética, fraternidade, disciplina e espiritualidade estavam profundamente relacionados. O candidato, por exemplo, não recebia apenas conhecimentos técnicos ao ingressar na corporação: assumia compromissos perante seus irmãos e perante Deus.

Outro aspecto interessante é a presença dos juramentos e das cerimônias de admissão. A partir do século XVI aparecem manuscritos que descrevem a admissão de aprendizes por meio de um rito no qual o candidato colocava a mão sobre a Bíblia e jurava cumprir os encargos apresentados. O Manuscrito de Aberdeen, de 1670, confirma essa prática e determina a leitura da chamada “Carta dos Maçons” na admissão de cada novo membro.

À medida que avançamos pelos manuscritos, também percebemos o desenvolvimento gradual de elementos que hoje reconhecemos nos rituais maçônicos. Há documentos que introduzem juramentos de segredo, exigências quanto ao número de maçons presentes na admissão, perguntas e respostas, referências a graus, desenhos esquemáticos de lojas e outras práticas. O livro mostra essas mudanças não como uma transformação repentina, mas como um processo que ocorreu ao longo de muitos anos.

Essa perspectiva é especialmente importante para compreender a relação entre a Maçonaria operativa e a Maçonaria especulativa. A obra apresenta argumentos segundo os quais não teria ocorrido uma ruptura absoluta entre esses dois universos, mas uma transformação progressiva de práticas, valores e estruturas. As antigas obrigações teriam evoluído para formas ritualísticas mais elaboradas, preservando determinados princípios que já estavam presentes na tradição operativa.

Os manuscritos também ajudam a entender a própria organização das lojas. Alguns funcionavam praticamente como constituições internas. Há registros de lojas que mantinham cópias dos Old Charges como documentos fundamentais para suas reuniões, enquanto outros manuscritos serviam também para registrar membros e reuniões ou como referência para a concessão de graus.

É interessante perceber, portanto, que a palavra “Loja” e a própria estrutura institucional maçônica possuem uma história muito mais complexa do que pode parecer à primeira vista. Em Edimburgo, por exemplo, no século XVII, a loja estava subordinada à Incorporação de Mary’s Chapel, que reunia maçons e carpinteiros.

O livro também apresenta o ambiente social e profissional em que esses documentos surgiram. Os pedreiros medievais não eram apenas trabalhadores que passavam seus dias construindo catedrais. Eram integrantes de organizações que possuíam regras, hierarquias, formas de aprendizagem, mecanismos de controle e relações de solidariedade. Ser admitido em uma guilda significava também adquirir uma nova posição social e um conhecimento especializado que diferenciava o trabalhador dentro da sociedade medieval.

Nesse contexto, a construção das grandes catedrais medievais ganha uma dimensão ainda mais interessante. Havia fé e espiritualidade, mas também planejamento, organização econômica, contratação de trabalhadores e controle financeiro. A construção de um templo envolvia tanto a dimensão espiritual quanto uma estrutura administrativa sofisticada.

Outro ponto que merece destaque é a relação dos manuscritos com as tradições lendárias. Histórias envolvendo Euclides, Salomão, Nimrod, Jabal e outros personagens aparecem associadas à origem da arte de construir. Essas narrativas ajudavam a conferir antiguidade, prestígio e legitimidade ao ofício.

Para mim, esse é um dos aspectos mais interessantes do livro: perceber como a tradição maçônica foi formada pela combinação de diferentes camadas. Há a realidade histórica das corporações de ofício, as regras profissionais, os valores morais, as práticas de admissão e, paralelamente, um universo de narrativas que procurava explicar e dignificar a origem do ofício.

A discussão sobre as origens da Maçonaria também aparece quando o autor aborda pesquisadores como Robert Freke Gould. Gould defendia que as raízes da instituição deveriam ser procuradas principalmente na Europa medieval e nas guildas de construtores, e não em uma suposta transmissão direta dos mistérios egípcios, da tradição templária ou de outras escolas iniciáticas da Antiguidade.

Essa abordagem é importante porque nos leva a separar tradição, lenda e documentação. A Maçonaria possui uma riqueza simbólica extraordinária, mas compreender sua história exige também voltar aos documentos e observar aquilo que efetivamente pode ser encontrado nas fontes.

É justamente aí que vejo o principal mérito de Manuscritos Góticos. O livro não trata os antigos manuscritos apenas como curiosidades históricas, mas procura mostrar como eles ajudam a explicar a formação da própria instituição. Para um maçom, isso permite olhar de outra maneira para palavras, símbolos, números, procedimentos e princípios presentes nos rituais, percebendo que muitos deles possuem uma trajetória histórica muito anterior à Maçonaria especulativa moderna.

Essa foi, para mim, a principal contribuição da leitura. O livro ajudou a transformar nomes de manuscritos que muitas vezes aparecem apenas como referências em uma sequência histórica compreensível. Regius, Cooke, Watson, Sloane, Dumfries e tantos outros deixam de ser simplesmente documentos citados em obras maçônicas e passam a fazer parte de um processo de formação da tradição que chegou até nós.

Minha avaliação é bastante positiva. Gostei da leitura porque ela amplia nossa compreensão da Maçonaria sem depender apenas daquilo que os próprios rituais nos apresentam. Conhecer os documentos que antecederam a Maçonaria especulativa permite perceber que nossa tradição foi sendo construída ao longo de séculos, preservando elementos antigos, mas também incorporando transformações.

Por isso, recomendo Manuscritos Góticos especialmente aos maçons interessados em história e pesquisa maçônica. É uma leitura que exige atenção, mas oferece ao leitor uma oportunidade valiosa de conhecer algumas das fontes que ajudam a explicar de onde vieram muitas das ideias que ainda encontramos na Maçonaria.

Ao terminar o livro, fiquei com uma impressão que considero muito significativa: conhecer as origens dá mais profundidade ao simbolismo da Maçonaria. Quando sabemos um pouco mais sobre o caminho percorrido por uma tradição, conseguimos olhar para aquilo que praticamos hoje com uma compreensão diferente.

Sebastião Marcondes∴
22.09.2026

Iniciação Maçônica: Uma Jornada de Terra, Água, Fogo e Ar, de André Aguiar



Esta semana concluí a leitura de Iniciação Maçônica: Uma Jornada de Terra, Água, Fogo e Ar, de André Aguiar, um livro de 183 páginas que apresenta uma proposta bastante diferente. O autor relata sua própria iniciação na Maçonaria, juntamente com a de outras duas pessoas, mas não o faz como uma descrição do ritual maçônico que conhecemos. A partir de uma experiência que tem como referência a iniciação no Rito Escocês Antigo e Aceito, ele constrói uma narrativa fantástica, na qual os personagens viajam no tempo e no espaço para enfrentar diferentes provas e experiências.

É justamente aí que está a característica mais marcante da obra. As provas apresentadas têm relação com elementos que podemos reconhecer em uma iniciação maçônica, mas são transformadas pelo autor em uma jornada muito mais ampla e fantasiosa. O que poderia ser uma passagem ritualística torna-se uma experiência extraordinária, atravessando diferentes épocas, lugares e tradições. Ao longo do livro aparecem, além da Maçonaria, referências aos Templários, aos mistérios egípcios, a Elêusis e à tradição Rosa-Cruz.

Por isso, acredito que seja importante deixar claro o que o leitor encontrará, e o que não encontrará, neste livro. Não se trata de uma reprodução ou explicação do ritual de iniciação maçônica do Rito Escocês Antigo e Aceito. É a interpretação do autor sobre essa experiência, apresentada por meio da ficção, da fantasia e do simbolismo. A iniciação real serve como ponto de partida, mas a história vai muito além dela.

Essa liberdade permite ao autor explorar aquilo que considero ser o verdadeiro tema do livro: a transformação interior. As provas deixam de ser simplesmente acontecimentos externos e passam a representar confrontos do indivíduo consigo mesmo. Em determinado momento, o texto afirma que “as provas eram reais, sim, mas também simbólicas”. É uma frase que ajuda a compreender toda a proposta da obra.

Há diversas passagens que trabalham justamente essa ideia. “Não se inicia um novo homem sem antes sepultar o antigo” talvez seja uma das mais significativas. A iniciação aparece como ruptura, como a necessidade de deixar para trás uma maneira anterior de existir para que outra possa começar. O caminho também é apresentado como uma descida às próprias profundezas, onde o iniciado precisa encarar aquilo que normalmente prefere não enxergar.

Essa dimensão de autoconhecimento aparece de maneira particularmente interessante na cena do espelho. O personagem não encontra simplesmente seu próprio reflexo, mas uma espécie de outro eu, uma versão distorcida e corrompida de si mesmo, como se suas próprias intenções negativas tivessem adquirido forma. “O reflexo jogava tudo na minha cara, sem filtro, sem pausa.” A imagem funciona como uma representação bastante clara da necessidade de confrontar os próprios defeitos.

Outro elemento recorrente é a relação entre escuridão e luz. O percurso é feito muitas vezes às cegas, e o silêncio assume quase uma dimensão física. “Não havia mais vozes. Só o som espesso do silêncio.” Em outro momento, surge a ideia de que, mesmo nos labirintos mais escuros, existe sempre um traço de luz. A luz, entretanto, não aparece simplesmente como algo que o iniciado recebe no final da cerimônia, mas como algo que precisa ser levado consigo.

Essa é, talvez, uma das ideias mais bonitas do livro: “A Luz não se encontra. A Luz se carrega.” A frase sintetiza a concepção de que a iniciação não produz uma transformação automática. Ver a luz é uma coisa; carregá-la para a vida cotidiana é outra completamente diferente.

E é justamente quando o livro deixa o cenário extraordinário das provas e retorna à vida comum que essa ideia ganha força. Depois da iniciação, continuam existindo a rotina, os compromissos, os boletos, o trânsito e os pequenos egoísmos do cotidiano. O que mudou não foi necessariamente o mundo exterior, mas a maneira como aquele que passou pela experiência passa a enxergá-lo.

O autor associa cada prova a um aspecto da consciência que precisa ser enfrentado, dominado e transformado. O simbolismo não está, portanto, apenas nos objetos ou nos acontecimentos, mas naquilo que eles representam para quem passa pela experiência.

Algumas passagens apresentam ainda uma visão muito interessante sobre a transformação individual. “Quando um homem decide transformar a si mesmo, ele lança uma pedra em um lago imóvel.” A metáfora mostra que uma mudança interior nunca permanece completamente restrita ao indivíduo: ela produz ondas, incomoda, desperta reações e pode afetar aqueles que estão ao seu redor.

O livro também apresenta uma visão bastante ampla das tradições iniciáticas. Maçonaria, Templários, mistérios antigos e Rosa-Cruz acabam fazendo parte de uma mesma grande jornada simbólica. Nas palavras do autor, “A Maçonaria, a Ordem, os Templários, os mistérios… são apenas nomes dados a portas. E atrás de cada porta… outra porta. E depois dela… outra luz.” É uma concepção interessante, embora seja claramente uma interpretação particular do autor e não uma descrição histórica ou ritualística dessas diferentes tradições.

Para quem procura conhecer o ritual maçônico de iniciação propriamente dito, portanto, esta não é a proposta da obra. Para quem está disposto a acompanhar uma interpretação fantasiosa e simbólica da experiência iniciática, porém, o livro oferece uma leitura interessante, especialmente pelas reflexões sobre autoconhecimento, transformação e consciência. Ao chegar às últimas páginas, a pergunta proposta pelo próprio autor ganha importância: tudo aquilo aconteceu realmente ou foi uma jornada que ocorreu apenas dentro das consciências? A resposta fica para o leitor. E talvez seja justamente essa a intenção do livro: não explicar uma iniciação, mas provocar o leitor a pensar sobre aquilo que uma iniciação pode significar.

No fim, permanece uma ideia que resume muito bem a obra: “A iniciação não termina quando se acende a luz. Ela apenas começa. Carregar a Luz é muito diferente de vê-la.” Talvez seja justamente aí que esteja a principal mensagem de André Aguiar: mais importante do que passar por uma iniciação é descobrir o que fazer com aquilo que ela despertou dentro de nós.

Sebastião Marcondes∴
05.09.2026

A máquina que pensa: Jensen Huang, Nvidia e o microchip mais cobiçado do mundo (Stephen Witt)

 


O livro “A Máquina que Pensa: Jensen Huang, Nvidia e o microchip mais cobiçado do mundo”, de Stephen Witt, com 272 páginas, é uma investigação independente sobre a Nvidia, sua trajetória e, principalmente, sobre as pessoas que ajudaram a transformar uma pequena empresa de tecnologia em uma das companhias mais importantes do mundo dos semicondutores e da inteligência artificial.

Stephen Witt reconstrói essa história acompanhando diversos personagens e acontecimentos ao longo de décadas. Jensen Huang aparece naturalmente como figura central, mas o livro não se limita à sua trajetória. O autor mostra as decisões, os acertos, os fracassos, as mudanças de direção e as apostas que fizeram parte da construção da Nvidia.

Em relação a personalidade e o estilo de liderança de Huang, o livro apresenta um executivo extremamente exigente, obcecado por velocidade e por desempenho, capaz de reconhecer quem trabalha bem, mas também conhecido por expor publicamente os erros de seus funcionários. A ideia de que é preciso "compartilhar o fracasso" aparece como parte de sua forma de administrar. Não é exatamente um ambiente de trabalho que parece confortável, e muitos ex-funcionários apontam o burnout como uma das razões para terem deixado a empresa.

A trajetória da Nvidia também mostra que sucesso e planejamento nem sempre caminham juntos. Um dos exemplos mais interessantes é o contraste entre projetos: um produto desenvolvido seguindo as melhores práticas do setor acabou fracassando, enquanto outro, produzido de maneira mais improvisada e arriscada, tornou-se um sucesso. Como resume uma das passagens que marquei: "Às vezes, é preciso apostar com tudo."

Outro ponto interessante é a capacidade de Huang de enxergar oportunidades antes que elas se tornassem evidentes para o mercado. O livro mostra como a Nvidia foi mudando de direção ao longo do tempo, encontrando novos mercados e desenvolvendo tecnologias que inicialmente pareciam pouco promissoras. A visão de que a empresa poderia um dia superar gigantes como a Intel aparece muito antes de isso parecer algo plausível.

A partir daí, a história deixa de ser apenas sobre uma empresa de placas gráficas e passa a acompanhar uma transformação muito maior. A computação paralela, os chips, os data centers e, finalmente, a inteligência artificial vão ganhando espaço na narrativa. O livro mostra como decisões tomadas muitos anos antes acabaram colocando a Nvidia em uma posição privilegiada quando a IA passou a ocupar o centro das atenções.

É justamente nessa parte que a leitura fica ainda mais interessante para quem acompanha a atual revolução da inteligência artificial. O autor apresenta não apenas o entusiasmo em torno dessa tecnologia, mas também as dúvidas e os riscos. Há pesquisadores que imaginam máquinas capazes de superar a inteligência humana, enquanto outros procuram compreender até onde essa evolução pode chegar. Entre as frases que marquei está a provocação de Geoffrey Hinton: "A humanidade é apenas uma fase passageira na evolução da inteligência."

O crescimento da inteligência artificial também aparece associado a um custo físico que muitas vezes fica escondido atrás dos modelos e dos aplicativos: a infraestrutura necessária para fazê-la funcionar. Data centers consomem enormes quantidades de energia, e a expansão dessa infraestrutura passa a criar desafios que vão muito além da tecnologia propriamente dita.

Ao longo da leitura, fica evidente que a história da Nvidia não pode ser explicada apenas por uma boa ideia ou por um único golpe de sorte. Houve erros, mudanças de estratégia, decisões arriscadas, trabalho intenso e, naturalmente, oportunidades que apareceram no momento certo. Uma frase de Huang que resume bem essa combinação: "sorte, mas baseada em visão."

O livro também mostra o lado menos glamoroso do Vale do Silício. Por trás das empresas bilionárias e das tecnologias que transformam o mundo existem pessoas trabalhando em ritmo intenso, disputas, fracassos, ambientes extremamente competitivos e escolhas que nem sempre parecem tão brilhantes quando vistas de perto. A Nvidia é apresentada como uma empresa sem muitos dos confortos encontrados em outras empresas de tecnologia, mas profundamente concentrada em seu trabalho.

No fim, A Máquina que Pensa é menos um livro sobre um chip e mais uma história sobre visão, tecnologia, negócios e pessoas. É também uma tentativa de compreender como uma empresa conseguiu estar no lugar certo quando uma das maiores transformações tecnológicas das últimas décadas aconteceu.

Uma das frases que melhor resume a trajetória apresentada por Stephen Witt é: "A história não se repete, mas muitas vezes rima." E talvez seja justamente isso que torna a leitura interessante: ao acompanhar o passado da Nvidia, conseguimos perceber que o sucesso tecnológico raramente é resultado de uma única decisão brilhante. Ele é construído por uma sequência de escolhas, apostas, erros, persistência e capacidade de perceber para onde o mundo está caminhando.

Para quem se interessa por tecnologia, inteligência artificial, empreendedorismo ou simplesmente por histórias de empresas que conseguiram transformar uma oportunidade em algo muito maior, é uma leitura que vale a pena.

Sebastião Marcondes∴
30.08.2026

Eiro ou ário?

 


Meu pai dizia que eu deveria escolher uma profissão que terminasse em “eiro”. Não sei exatamente de onde vinha essa convicção, mas ele parecia ter uma teoria a respeito. Pedreiro, padeiro, marceneiro, sapateiro, jardineiro, cozinheiro, engenheiro, banqueiro... Havia alguma coisa de sólido nessas profissões, talvez porque quase todas estivessem ligadas a um ofício que se podia enxergar, tocar e reconhecer pelo resultado do trabalho. Eu poderia ter seguido o conselho e me tornado banqueiro. Mas não. Acabei sendo bancário.

Na época, naturalmente, eu não imaginava que uma diferença tão pequena na palavra pudesse render alguma reflexão. Para mim, banqueiro e bancário eram apenas duas palavras para pessoas que trabalhavam em banco, com uma diferença que eu não sabia explicar muito bem. Hoje, entretanto, percebo que meu pai talvez tivesse uma relação muito mais interessante com a língua portuguesa do que eu imaginava. Afinal, existem muitas profissões terminadas em “eiro” e muitas outras terminadas em “ário”, e essa divisão tem uma história.

O curioso é que os dois sufixos têm a mesma origem. Tanto o “-eiro” quanto o “-ário” remontam ao latim -arius. A diferença está no caminho que cada um percorreu até chegar ao português. O “-ário” manteve uma forma mais próxima da latina, por uma evolução erudita, enquanto o “-eiro” resultou da evolução popular da língua, passando por transformações fonéticas ao longo dos séculos. São, portanto, irmãos de origem que acabaram seguindo caminhos diferentes e chegando a lugares bem distintos da nossa língua.

Há outra curiosidade nessa história: a palavra brasileiro. Hoje ela é tão natural que parece ter nascido junto com o país, mas não foi bem assim. Nos primeiros tempos da colonização, “brasileiro” também era usado para designar aquele que trabalhava com o pau-brasil, extraindo e comercializando a madeira. Era, portanto, uma palavra que indicava uma atividade, como tantas outras terminadas em “-eiro”. Só mais tarde ela passou a designar os nascidos no Brasil. Antes de sermos brasileiros por nacionalidade, fomos brasileiros por profissão.

No outro lado estão bibliotecário, secretário, funcionário, comerciário, ferroviário, bancário. Talvez seja apenas impressão minha, mas há alguma diferença de cenário entre elas. O pedreiro chega com sua ferramenta; o bancário, com seu crachá. O primeiro levanta paredes; o segundo trabalha diante de uma tela. Um trabalha com cimento, tijolo e argamassa; o outro com contas, contratos, computadores e, principalmente, dinheiro.

E é justamente aqui que a brincadeira fica melhor, porque dinheiro termina em “-eiro”, enquanto salário termina em “-ário”. Meu pai queria que eu escolhesse uma profissão terminada em “-eiro”. Eu fui ser bancário. Talvez ele estivesse pensando no dinheiro e eu tenha acabado escolhendo o salário.

Não sei se existe alguma sabedoria escondida nisso ou se estou apenas tentando encontrar graça em uma coincidência da língua. Afinal, um pedreiro também pode receber salário, um banqueiro pode viver de salário e um bancário pode acumular dinheiro. As palavras não determinam a vida de ninguém. Mas às vezes elas revelam, sem querer, pequenas histórias sobre a maneira como enxergamos o mundo.

E talvez a palavra mais interessante de todas seja justamente profissão. Hoje costumamos entendê-la simplesmente como aquilo que fazemos para ganhar a vida. Perguntamos a alguém qual é sua profissão quase como perguntamos onde trabalha ou quanto tempo leva para chegar ao trabalho. Mas a palavra carrega uma história muito mais profunda. “Professar” também significa declarar publicamente aquilo em que se acredita. É daí que vem, por exemplo, a expressão “profissão de fé”.

Robert H. Hopcke, em Sincronicidade, lembra que houve uma época em que ter uma profissão possuía um sentido mais completo, quase espiritual: significava dedicar a vida a uma atividade em consonância com um juramento ou com determinados valores. O trabalho podia ser uma declaração daquilo em que alguém acreditava.

Gosto dessa ideia porque ela devolve alguma dignidade a uma palavra que usamos todos os dias sem pensar muito nela. Talvez uma profissão não seja apenas aquilo que fazemos para receber dinheiro no fim do mês. Pode ser também aquilo que escolhemos fazer com uma parte considerável da nossa existência. E, nesse sentido, pouco importa se a palavra termina em “-eiro” ou em “-ário”.

Meu pai queria que eu fosse banqueiro. A vida me fez bancário. Passei longe do conselho sobre o sufixo, mas talvez tenha entendido, com o tempo, aquilo que havia por trás dele. Mais importante do que escolher uma palavra terminada em “-eiro” ou “-ário” é encontrar alguma coisa que dê sentido ao que fazemos enquanto o salário chega e o dinheiro vai embora. Pouco importa se a profissão termina em “-eiro” ou “-ário”; o que importa é não deixar a nossa vida terminar apenas no salário.

Sebastião Marcondes∴
28.08.2026


O Dia em que Meu Cachorro Virou Presidente (Vinicius Lameira)

 


Rapidinho concluí a leitura de O Dia em que Meu Cachorro Virou Presidente, de Vinicius Lameira. Com apenas 49 páginas, o livro é curto, mas consegue entregar exatamente aquilo que se propõe: uma sátira política divertida, irreverente e repleta de ironias.

A premissa é tão absurda quanto instigante. Rex, um simpático vira-lata, acaba envolvido na corrida presidencial e, para surpresa de todos, é eleito presidente da República. A partir daí, o autor constrói uma sequência de situações cômicas que, por trás do humor, servem para provocar reflexões sobre a política, o comportamento do eleitor e a sociedade brasileira.

O humor é o grande motor da narrativa. Frases como "Rex 2026 – Morde, mas não rouba", "Mais cocô nas calçadas, menos merda no Congresso" e "Era ridículo. Era perfeito. Era Brasil." dão o tom da obra e deixam claro que o exagero é um recurso utilizado para expor contradições bem reais.

O livro, evidentemente cômico, transforma-se imediatamente em objeto das mais diversas interpretações: protesto, manifestação artística ou crítica ao sistema político. O autor aproveita a situação para ironizar não apenas a política, mas também a facilidade com que muitas pessoas atribuem significados grandiosos a qualquer acontecimento.

Por trás da comédia, entretanto, existe uma crítica bastante séria. Em diversos momentos, o livro sugere que Rex não é o verdadeiro protagonista da história. Como o próprio autor escreve, "Rex não foi o erro. Rex foi o espelho." O cachorro passa a representar uma sociedade que muitas vezes prefere o entretenimento ao debate, o espetáculo à responsabilidade e o humor à reflexão.

Essa ideia aparece de maneira especialmente forte quando o autor afirma que "uma nação que ri de tudo, cedo ou tarde, chora por tudo". A frase resume bem o espírito do livro: fazer rir para, logo em seguida, provocar certo desconforto. Afinal, a sátira só funciona porque exagera comportamentos que, em alguma medida, conseguimos reconhecer na realidade.

Apesar do tom crítico, o livro não termina de forma pessimista. Pelo contrário, encerra lembrando que a transformação não depende apenas de grandes líderes ou mudanças espetaculares, mas também das pequenas escolhas de cada cidadão. Como diz um dos últimos trechos da obra, não é preciso mudar o mundo inteiro de uma vez; basta começar pelo próprio quarteirão, pelas atitudes do dia a dia, pela consciência e pelas escolhas individuais.

A leitura também chega em um momento oportuno. Em um ano de eleições presidenciais no Brasil, milhões de brasileiros serão chamados novamente às urnas para escolher os rumos do país. Sem defender candidatos ou ideologias, o livro serve como um convite à reflexão sobre a responsabilidade de cada eleitor. Afinal, mais importante do que rir da sátira é compreender a crítica que ela faz e lembrar que o futuro de uma nação também é construído pelas escolhas conscientes de seus cidadãos.

Recomendo a leitura para quem aprecia sátiras inteligentes e entende que o humor pode ser uma poderosa forma de reflexão. O Dia em que Meu Cachorro Virou Presidente diverte, provoca e chega em um momento especialmente oportuno. Em meio ao debate político que naturalmente acompanha um ano eleitoral, a obra lembra que votar é mais do que escolher um candidato: é assumir responsabilidade pelo futuro coletivo. Ao final, permanece uma pergunta incômoda: será que o verdadeiro absurdo está na ficção... ou na realidade que inspirou essa história?

As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf

Gosto muito de história porque acredito que conhecer o passado é uma maneira de entender melhor o presente. Mas também porque, quanto mais l...