Um relógio para lembrar o tempo



Havia um tempo em que a gente não precisava olhar para o relógio para saber que horas eram. Bastava ouvir o sino. Na minha infância, o único relógio que realmente importava era o da igreja. Relógio de pulso era coisa rara, celular nem existia e, para saber as horas, não era preciso carregar nada no bolso. O sino cuidava disso.

Ele tocava nas horas cheias e também a cada meia hora, das seis da manhã às dez da noite. Depois disso, o silêncio era mais importante que a pontualidade. Afinal, ninguém precisava saber que eram onze horas se, para descobrir, fosse necessário acordar a vizinhança inteira. Mas o sino era muito mais que um relógio. Durante séculos, ele foi uma espécie de voz da comunidade. Antes de existirem telefones, alto-falantes, rádio ou qualquer outra forma rápida de comunicação, era por meio dele que a igreja falava com a cidade. Seu som podia chamar para a missa, anunciar uma morte, celebrar uma festa, comunicar uma alegria ou marcar um momento de oração.

Por isso, cada toque tinha seu significado. Havia o sino do luto, o da alegria, o da paz, o das horas e o da consagração. Quem conhecia seus sons não precisava de explicações. Bastava ouvir para saber que alguma coisa estava acontecendo. O sino também tinha algo de democrático: sua voz alcançava todos. Não importava se a pessoa estava dentro da igreja, em casa, trabalhando ou caminhando pela rua. O som atravessava portas, quintais e distâncias e chegava a todos. Era uma mensagem sem destinatário específico, porque pertencia à comunidade inteira.

Na escola, o sino também mandava. Era ele que avisava a hora de entrar e, principalmente, a hora de ir embora. E isso era uma informação que ninguém ignorava. Uma vez, alguém “roubou” o sino e resolveu tocá-lo antes da hora. Foi o suficiente. O sino tocou, os alunos ouviram e todos saíram. Ninguém perguntou se era realmente a hora. Se o sino tinha tocado, era porque estava na hora de ir embora. A autoridade do sino não precisava de confirmação.

Não vou contar aqui como conseguiram devolver o sino. Digamos apenas que a história não terminou exatamente como começou. Muitos colegas acabaram expulsos daquela escola. Algumas histórias da infância ficam melhores quando a gente deixa uma parte delas guardada.

E eu também tinha meus momentos de responsabilidade com os sinos. Era coroinha e sempre errava justamente na consagração. Não ajudava em nada o fato de eu ter certo medo dos padres Teodoro ou Bertoldo, que tinham vindo da Holanda. Havia momentos em que eu deveria saber exatamente quando tocar, mas, entre a responsabilidade, o nervosismo e o receio de fazer alguma coisa errada diante deles, o sino parecia ter muito vida própria.

Para nós, o sino era quase um relógio de precisão. Se alguém perguntasse as horas, ninguém respondia com minutos e segundos, porque ninguém tinha como saber. A resposta era mais ou menos assim: “Agora pouco bateu três horas.” Ou: “Já, já vai bater quatro.” E estava resolvido. O tempo não precisava ser exato. Bastava estar próximo.

Hoje, quando passo pela praça de Taguatinga, encontro ali outro marcador do tempo: o relógio da praça. Ele foi doado a Brasília, em dezembro de 1970, pelo presidente da Citizen Watch Co. Mas parece que o relógio não conseguiu se misturar às obras da nova capital. Talvez porque Brasília, dizem, não tenha horas. Tem planos, projetos, inaugurações, monumentos e até eixos, mas hora mesmo, só o do ponto de trabalho na minha empresa. Assim, o relógio acabou renegado para Taguatinga.

Tem quatro faces, para que ninguém possa dizer que não teve oportunidade de acertar a hora. Ainda assim, as quatro parecem viver em tempos diferentes. É difícil encontrar todas marcando a hora correta ao mesmo tempo. O relógio já foi reformado em 2008 e novamente em 2025, mas, pelo jeito, algumas coisas não se consertam com reforma ou mudanças. E o mais curioso é que, mesmo em tempo de eleição, nunca ouvi candidato prometer que vai acertar o relógio da praça. Talvez porque até promessa de campanha tenha limite.

Passo por aquela praça todos os dias há quinze anos. E todos os dias olho para o relógio. Não para saber as horas. Se eu quisesse saber as horas, provavelmente consultaria o celular, que hoje carrego no bolso como se fosse uma pequena central de controle do universo. Olho para o relógio porque ele me leva de volta para um tempo em que o tempo tinha outro ritmo.

Talvez seja por isso que aquele relógio, mesmo quase nunca acertando a hora, consiga acertar tanto a minha memória. Ele me lembra uma época em que o tempo não vinha de uma tela iluminada, nem vibrava dentro do bolso. Vinha de uma torre, em ondas sonoras, e era compartilhado por todos.

O relógio da praça pode até estar errado. Para mim, entretanto, ele está sempre marcando alguma coisa. Marca a infância, marca a escola, marca a igreja, marca os sinos. Marca aquele mundo em que sabíamos que o dia estava passando porque, de meia em meia hora, uma voz de bronze atravessava a cidade e dizia que o tempo continuava andando.

Talvez seja por isso que eu ainda olhe para aquele relógio todos os dias. Não quero saber que horas são. Quero apenas lembrar de quando, para saber, bastava esperar o sino tocar.

Sebastião Marcondes∴ 02.10.2026

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