Cabo Verde

 


Há pessoas que mudam de cidade, de estado ou de país. Outras parecem apenas trocar de endereço. Onde chegam, criam raízes.

Tenho um grande Irmão que desembarcou em Brasília há mais de vinte anos. Veio para estudar na Universidade de Brasília. Como acontece com tantos estudantes, imaginava que aquela seria apenas uma etapa da vida. Mas Brasília tinha outros planos.

Foi na universidade que conheceu uma jovem estudante. O namoro virou casamento. Vieram os filhos. Vieram os amigos. Vieram os anos. E, sem que percebesse, passou a pertencer a esta terra tanto quanto ao lugar onde nasceu.

Ele aprendeu a amar Brasília, o Brasil e o povo brasileiro. E nós aprendemos a gostar de um pedacinho da terra dele.

Seu português é um capítulo à parte. Correto, elegante e muito bem falado. O sotaque não é de Portugal. Também já não é apenas o de sua terra natal. Há um pouco do crioulo que embala sua infância, um discreto toque do inglês, afinal, é professor desse idioma, e, sobretudo, muito do jeito brasileiro de falar, adquirido ao longo de tantos anos. Talvez seja justamente essa mistura que o torne tão único. Mas não é a maneira como fala que mais chama a atenção. É a maneira como vive.

Nunca o vi reclamar da vida, nem do cansaço. Nunca o ouvi falar mal de alguém. Está sempre alegre, principalmente quando está entre amigos, passeando com sua inseparável custom de guerra ou caminhando ao lado de seu cão. Parece carregar a rara habilidade de encontrar motivos para sorrir sem precisar procurá-los. É caridoso. Participativo. Sempre de pé e à ordem quando alguém precisa.

Quando saímos para comer, ele se serve generosamente da salada. É vegetariano. Nunca, porém, faz cara feia para quem escolheu a picanha ou a linguiça do churrasco. Da mesma forma, não bebe bebida alcoólica, mas, vez ou outra, pede sugestão de uma boa cachaça para presentear o pai, que mora na Alemanha. Há gestos que revelam uma pessoa melhor do que longos discursos.

Outro dia ele me enviou uma reportagem sobre a cidade de Cabo Verde, no Sul de Minas, próxima da minha cidade natal. Ele nem imaginava que dali saiu um dos maiores amigos que a vida me deu. Um amigo que já partiu para o Oriente Eterno justamente na idade que tenho hoje. Mineiro de nascimento, mas dono de um sorriso tão largo que parecia ter sido fabricado na Bahia. Não por acaso, todos o chamavam de Baiano. Gostava de gente, de uma boa conversa e do trabalho bem feito. Era um cabo-verdense que, na alegria de viver, na generosidade e no modo de enxergar a vida, lembrava muito o cabo-verdiano.

Foi uma dessas sincronicidades que a vida distribui sem avisar. Mas foi o futebol que terminou de completar esse mapa de afetos.

Durante a Copa do Mundo, sentei-me diante da televisão para assistir aos jogos de Cabo Verde. A cada partida, era impossível não torcer por aquele pequeno país perdido no Atlântico, entre a África, a Europa e o Brasil. A seleção jogava com coragem, alegria e uma disposição que fazia qualquer brasileiro se identificar.

Aos poucos, parecia que o Brasil inteiro passara a torcer por Cabo Verde. Não apenas pelos resultados, mas pela forma como aquele povo se apresentava ao mundo: simples, lutador, guerreiro e sempre sorrindo, mesmo diante dos maiores desafios.

Enquanto assistia aos jogos, percebi que aquele jeito de ser não me era estranho. Eu o via há muitos anos, quase todas as semanas, na figura daquele meu grande Irmão. E também o havia conhecido, anos antes, naquele amigo cabo-verdense que a vida levou cedo demais. Ambos gostavam de gente, de conversar, do trabalho e da vida. Com os dois aprendi muito, não apenas pelas palavras, mas principalmente pelo exemplo. Talvez seja por isso que hoje eu torça por Cabo Verde como quem torce por um velho amigo. Porque, muito antes de admirar Cabo Verde, tive o privilégio de conhecer um cabo-verdiano e um cabo-verdense.

Sebastião Marcondes∴
04.07.2026

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