Concluí a leitura de Ernst e Falk: Diálogos para Franco-maçons, de Gotthold Ephraim Lessing (1729–1781), com 140 páginas, em tradução e edição comentada do Professor Doutor Rui Aurélio de Lacerda Badaró.
Escrito por volta de 1778, o livro apresenta cinco diálogos entre Ernst e Falk, nos quais Lessing procura responder a uma pergunta que continua atual: afinal, o que é a Maçonaria? Em vez de concentrar-se em rituais, símbolos ou graus, o filósofo alemão volta sua atenção para a natureza da instituição, sua finalidade e o papel que ela pode desempenhar na sociedade.
A leitura exige compreender o contexto histórico em que a obra foi escrita. A Alemanha vivia intensos debates políticos, filosóficos e religiosos, e a própria Maçonaria passava por conflitos internos quanto aos seus objetivos e identidade. É nesse ambiente que Lessing constrói seus diálogos, utilizando a conversa entre os dois personagens para discutir temas como liberdade, fraternidade, tolerância e o verdadeiro sentido da Ordem.
O que mais me chamou a atenção foi perceber como muitas das questões levantadas há quase duzentos e cinquenta anos continuam presentes na Maçonaria atual. Lessing questiona se os maçons realmente compreendem a instituição da qual fazem parte, critica aqueles que reduzem a Maçonaria a seus aspectos exteriores e afirma que seus maiores adversários nem sempre são os profanos, mas, muitas vezes, os próprios iniciados que deixam de compreender sua finalidade.
Outro ponto é sua concepção da Maçonaria como um vínculo capaz de unir homens separados por diferenças de religião, classe social e nacionalidade. Para Lessing, a instituição existe para aproximar pessoas que a sociedade insiste em dividir. Levando essa ideia às últimas consequências, ele chega a afirmar que, no dia em que a fraternidade se tornar uma realidade natural entre os homens, a própria Maçonaria terá cumprido sua missão e deixará de ser necessária. É uma reflexão ousada e surpreendentemente atual.
Em determinado momento do diálogo, o autor afirma que os chamados "segredos maçônicos" não podem ser transmitidos por palavras, mas apenas por atos. Essa ideia desloca o foco da curiosidade sobre sinais e cerimônias para aquilo que realmente caracteriza um maçom: sua conduta. Como sugere Lessing, o verdadeiro valor da Maçonaria não está naquilo que ela declara, mas naquilo que seus membros efetivamente realizam.
Um grande mérito desta edição está no trabalho de Rui Aurélio de Lacerda Badaró. Suas notas ocupam boa parte do volume e vão muito além das explicações habituais de um tradutor. Baseadas em extensa pesquisa histórica, elas contextualizam cada diálogo, apresentam personagens, esclarecem referências filosóficas e discutem diferentes interpretações sobre a história da Maçonaria. Em muitos momentos, tive a impressão de estar lendo duas obras complementares: os diálogos de Lessing e um verdadeiro ensaio sobre o Iluminismo, a Maçonaria do século XVIII e o pensamento do próprio autor.
Ao final da leitura, fiquei com a impressão de que Ernst e Falk continua sendo um livro atual justamente porque não oferece definições fechadas. Pelo contrário, convida o leitor a refletir continuamente sobre o propósito da Maçonaria e sobre a coerência entre seus princípios e sua prática. Muitas das críticas e questionamentos formulados por Lessing poderiam perfeitamente ser dirigidos às Lojas contemporâneas.
É uma leitura especialmente para quem deseja refletir sobre a Maçonaria para além do ritual. É uma obra breve, mas densa, que levanta perguntas muito mais importantes do que as respostas que pretende oferecer. E, graças ao excelente trabalho de Rui Badaró, transforma-se também em uma rica oportunidade de conhecer o contexto histórico, filosófico e intelectual em que essas ideias nasceram.
Sebastião Marcondes∴
18.07.2026

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