Murphy Tinha Razão

 


Esta é uma obra de ficção. Personagens, gestores, sistemas, arquivos, data, horários, reuniões e acontecimentos foram livremente imaginados por mim. Se o leitor identificar alguma semelhança com fatos reais, talvez a realidade é que tenha perdido o hábito de disfarçar.

Existe uma teoria que nunca vi escrita em lugar nenhum, mas tenho certeza de que ela já foi comprovada milhares de vezes: quando um dia começa dando errado, ele faz questão de mostrar que ainda não atingiu seu potencial.

Naquela manhã, perdi a hora. Antes mesmo de sair de casa, ainda consegui discutir com a esposa. Corri para o ponto de ônibus, justamente a tempo de ver o meu partir. O seguinte atrasou. Quando finalmente chegou, quebrou no caminho. O próximo veio tão cheio que não havia espaço para mais ninguém. Quando enfim consegui chegar ao trabalho, imaginei que dali para frente as coisas começariam a melhorar. Foi exatamente nesse momento que o computador resolveu instalar atualizações. Como se isso não bastasse, naquele dia não havia um único colega por perto para emprestar seu computador para que eu registrasse minha entrada enquanto esperava a boa vontade da máquina.

Quando finalmente consegui acessar os sistemas, encontrei outra surpresa. Meu chefe havia justificado minhas horas extras do dia anterior como se elas tivessem ocorrido por erro meu, por permanecer mais de seis horas seguidas sem registrar a saída. Na verdade, eu havia permanecido trabalhando justamente para resolver problemas de outras pessoas, mas esse detalhe passou despercebido. Antes que eu pudesse digerir isso, veio outra notícia: a plataforma de desenvolvimento que eu utilizava não poderia mais ser usada. A partir daquele dia haveria uma nova. O prazo do projeto, entretanto, permanecia o mesmo, sem levar em conta a curva de aprendizado. Já outro projeto teve justamente o contrário: o prazo foi encurtado.

Como se ainda houvesse espaço para mais alguma coisa, o arquivo indispensável para o funcionamento do sistema, que deveria ter chegado logo pela manhã, simplesmente não apareceu. Restou estudar uma contingência. Passei boa parte da manhã analisando impactos e consequências, conversando com antigos analistas do sistema, até chegar a uma solução. Quando finalmente a encontrei, os responsáveis pela operação do sistema estavam almoçando. Resolvi fazer o mesmo e então descobri que, na correria para pegar o ônibus, havia esquecido a marmita em casa. Como já passava do horário, quase todos os restaurantes próximos estavam fechando. O almoço acabou resumido a alguns salgadinhos.

Ao voltar, o computador estava cheio de mensagens perguntando onde eu estava e por que a solução, que nem sequer havia sido discutida, ainda não tinha sido implantada. Montei a rotina, fiz todos os testes, salvei uma cópia da situação atual para eventual retorno e solicitei a execução. Bastava a autorização do superior. Ele, porém, estava em reunião com o superior dele e não visualizava minhas mensagens. Enquanto isso, outras pessoas perguntavam a todo instante qual era a previsão. Quando a autorização finalmente veio, o processamento começou e permitiu que todos voltassem a trabalhar. Em partes. Ainda havia uma série de rotinas atrasadas que precisavam ser executadas antes do início do registro dos novos negócios. Para minha alegria, outra delas também dependia de autorização. E meu superior continuava na mesma reunião.

Tudo acabou sendo liberado. Tudo processado. Quinze minutos depois, porém, o arquivo que dera origem a toda aquela confusão resolveu chegar. Nova reunião. A decisão foi concluir toda a contingência manual, fazer uma cópia do movimento do dia, excluir o movimento atual, processar o arquivo e, depois, atualizar novamente as movimentações do dia. A rotina automática permanecia parada justamente para evitar duplicidades. Enquanto eu preparava a exclusão do movimento do dia, alguém que não fazia ideia do que estava acontecendo viu o arquivo disponível e a rotina parada. Achando que estava ajudando, colocou o processamento em andamento. Eu não percebi. Procurei meu superior, consegui sua autorização e executei minha rotina. O arquivo terminou de ser processado e, segundos depois, minha rotina, que deveria ter sido executada antes do arquivo, apagou exatamente tudo o que ele havia acabado de produzir.

A primeira pergunta foi inevitável: se tudo foi apagado, o que será atualizado? Felizmente, eu havia feito uma cópia do movimento antes da exclusão. Pelo menos uma decisão acertada naquele dia. Bastava então processar novamente o arquivo. Bastava... O arquivo original já havia sido excluído, porque o próprio sistema cria automaticamente uma cópia com o nome correto. Só que, ao executar novamente a rotina, ela limpou justamente o local onde essa cópia estava armazenada. Resultado: não havia mais o arquivo original, não havia mais a cópia e os dados do dia também tinham desaparecido.

Foi então que alguém lembrou que o arquivo podia ser baixado manualmente em um site. Eram dois gigabytes e cerca de quinze minutos de download. Depois ainda seria preciso descobrir como reenviá-lo para processamento e se minha área de trabalho suportaria um arquivo daquele tamanho. Enquanto isso, meu ponto expirou. Agora era necessário encontrar novamente meu superior para autorizar trabalho além da jornada normal, torcendo para que, no dia seguinte, ninguém viesse pedir explicações. Consegui a autorização, consegui baixar o arquivo e consegui processá-lo. Restava apenas atualizar o movimento do dia. Naturalmente, isso também dependia de nova autorização. Enviei mensagem. Nenhuma resposta. Procurei um superior lateral. Também nada. Depois de alguns minutos, ambos visualizaram as mensagens. Um deles ainda reclamou que não havia nada para liberar.

Veio então a conferência final. A planilha apresentava diferenças em praticamente todos os valores. Por alguns instantes, parecia que nada havia dado certo. Depois percebemos que a única diferença estava no posicionamento das casas decimais. Pela primeira vez naquele dia, tudo realmente estava correto. Ou quase. Ainda era preciso deixar registradas todas as orientações para quem assumiria o trabalho no dia seguinte, alocar as horas trabalhadas do mês nas respectivas demandas e decidir onde lançar as incontáveis horas gastas apagando incêndios dos últimos dias, que certamente não poderiam ser atribuídas aos projetos em desenvolvimento, justamente os projetos que já estavam atrasados.

Antes de sair, conferi duas vezes se havia registrado minha saída. Não cometeria esse erro. Ao olhar o relógio, descobri que o último ônibus já tinha ido embora. Uber? Melhor nem consultar o preço. Restou o metrô, torcendo apenas para que ele não resolvesse quebrar também. Cheguei tarde em casa. Como a discussão da manhã ainda não havia sido esquecida, jantar não fazia parte dos planos. Pensei apenas em descansar um pouco. Foi então que lembrei que, na última briga, ela havia jogado fora justamente aquela cachacinha que eu tomaria para relaxar. Deitei. Afinal, em poucas horas começaria um novo dia. E, depois daquele, aprendi que Murphy tinha razão.

Sebastião Marcondes∴
30.06.2026


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