Album incompleto


Eu fui criança e, como toda criança, colecionei figurinhas.

Teve Copa em que elas vinham dentro do chiclete. A gente comprava sem nem pensar duas vezes: queria completar o álbum. Passávamos o dia mascando chicletes, sem pressa de acabar, como gado ruminando, mesmo que, de brinde, viessem cáries ou uma gastrite precoce.

Depois de algum tempo, surgia o inevitável: um monte de figurinhas repetidas. Era aí que começava o verdadeiro jogo. Trocávamos no recreio, negociávamos como pequenos comerciantes, ou partíamos para o “bafo”, onde a sorte decidia quem levava o montinho. Nem sempre terminava bem, lembro de discussões, empurrões e até amizades abaladas por causa de um jogador difícil de achar.

Naquele tempo, as dificuldades eram tantas que até cola virava improviso: tinha menino que fazia a própria, em casa, com farinha e água, para conseguir colar as figurinhas no álbum. Hoje, elas já vêm prontas, adesivas, não é mais preciso inventar nada.

Havia também os que tinham mais dinheiro. Esses queriam o álbum completo a qualquer custo. Compravam mais, trocavam menos, e às vezes olhavam com certa superioridade para quem ainda colecionava espaços em branco. Ainda assim, completar um álbum era quase um milagre coletivo. Quase ninguém conseguia.

Hoje, olhando para o álbum da Copa, vejo que ele tem 980 “cromos”, um nome mais elegante para aquilo que sempre foi, no fundo, a mesma figurinha. Cada envelope, com sete unidades, custa sete reais. Fazendo as contas mais otimistas, e irreais, seriam 980 reais para completar o álbum sem repetir nenhuma. Mas ninguém escapa das repetidas.

O valor real é outro. Mais alto. Muito mais alto. Um preço difícil para muitas famílias. Ainda assim, as crianças vão pedir. Vão insistir, espernear, sonhar com o álbum completo. E muitos pais, alguns tão crianças quanto os filhos, vão ceder.

E, para dar conta da brincadeira, talvez economizem onde não deveriam. Menos dentista, mais figurinhas. No fim das contas, o álbum pode até não ficar completo, mas as cáries, essas, vêm garantidas.

Sebastião Marcondes∴
02.05.2026

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