A noite parecia destinada a terminar da forma mais previsível possível: um pouco de futebol, algum sono no sofá e, depois, cama.
Assisti ao jogo entre Brasil e Haiti. A seleção venceu por 3 a 0, com todos os gols marcados ainda no primeiro tempo. Jogo resolvido cedo. Depois, comecei a acompanhar Turquia e Paraguai. O Paraguai vencia por 1 a 0 quando o sono começou a cobrar seu preço. Primeiro vieram os bocejos. Depois, aquela luta inútil para permanecer acordado no sofá. Percebendo que a derrota era inevitável, desliguei a televisão e fui para a cama.
Uns quinze minutos depois de deitar, quando eu já começava a atravessar a fronteira entre a vigília e o sono, fui arrancado dela por um som estridente. O celular, na cabeceira da cama, disparou um alarme altíssimo. Não era toque de ligação. Não era mensagem. Não era nada que eu já tivesse ouvido antes.
Assustado, peguei o aparelho. Na tela havia uma mensagem. Sem os óculos, porém, consegui entender quase nada. Vi apenas algo relacionado à Defesa Civil. Antes que eu pudesse raciocinar, uma voz feminina, metálica e impessoal, leu o aviso:
– Defesa Civil... misantropi quatro.
Se eu já não havia entendido lendo, compreendi menos ainda ouvindo. Procurei os óculos. Eram exatamente 1h24 da manhã. A mensagem continuava lá:
"Alerta extremo. Defesa Civil: misantropi4."
Li uma vez. Li duas. Li três.
Nada fazia sentido.
Curioso, peguei o próprio celular e pesquisei aquela palavra estranha que jamais havia visto. A resposta apareceu rapidamente:
"Misantropia: aversão ou ódio à humanidade. Falta de sociabilidade. Melancolia. Tristeza. Depressão."
Pronto. Agora eu estava mais confuso do que antes.
Como alguém envia um alerta extremo para milhões de pessoas contendo uma palavra dessas? Por já ter trabalhado com segurança da informação, a hipótese me pareceu óbvia: aquilo provavelmente não era um alerta legítimo. Tudo indicava uma invasão ou falha em algum sistema. Desliguei a tela, virei para o lado e tentei voltar a dormir, torcendo para que nenhum outro aviso resolvesse surgir naquela madrugada.
Mas o sono demorou um pouco mais a chegar.
Aquela palavra ficou rondando meus pensamentos. Misantropia. Ódio à humanidade.
Confesso que tenho dificuldade para compreender esse sentimento. Talvez porque eu sempre tenha procurado caminhar na direção oposta. Estou sempre de pé e à ordem para ajudar a tornar mais feliz a humanidade, ainda que por meio de pequenos gestos, daqueles que quase passam despercebidos no cotidiano.
Fiquei pensando em como alguém chega ao ponto de odiar a humanidade. Talvez seja alguém que só consiga encontrar felicidade na infelicidade alheia. Alguém incapaz de perceber que existe um mundo além de si mesmo. Alguém que, para comemorar um gol, precisa explodir fogos na madrugada ou buzinar sem parar, sem se importar com quem está doente, com os idosos que tentam descansar, com os bebês que finalmente adormeceram ou com os trabalhadores que, em poucas horas, precisarão assumir mais um turno.
Talvez a misantropia não seja apenas odiar a humanidade. Talvez seja agir como se ela não existisse.
Naquela noite, o alerta chegou por engano, por falha ou por invasão. Mas, pensando bem, existem demonstrações de misantropia muito mais frequentes.
E elas não precisam de celular para nos acordar.
Sebastião Marcondes∴
20.06.2026

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