A notícia chegou numa segunda-feira.
Era urgente.
Tão urgente que o prazo original de oito meses havia sido reduzido para um mês e meio.
Ninguém entendeu muito bem como algo planejado para oito meses poderia, de repente, precisar ficar pronto em quarenta e cinco dias. Mas questionar a urgência de uma urgência costuma ser visto como falta de espírito colaborativo.
Montaram-se reuniões, criaram-se grupos e convocaram-se especialistas. Pessoas que mal se conheciam passaram a trocar mensagens a qualquer dia e a qualquer hora, como velhos amigos de guerra.
A cada encontro surgiam novas informações. Ou melhor, surgiam pedaços de informações. Quando alguém fazia uma pergunta mais específica, o responsável pelo projeto respondia com sinceridade admirável:
– Preciso estudar esse ponto.
Enquanto isso, os demais trabalhavam.
Mudaram-se processos. Alteraram-se estruturas. Redesenharam-se partes inteiras do sistema. Sábados deixaram de ser sábados. Feriado tornou-se oportunidade. O café passou a ser considerado um alimento.
Curiosamente, aqueles que passavam os dias construindo a solução já começavam a acreditar que o prazo poderia ser cumprido. O responsável pela urgência, entretanto, parecia cada vez mais preocupado. Tão preocupado que já não se limitava às reuniões oficiais. Sempre que conversava com alguém que pudesse contribuir com o projeto, tentava recrutá-lo imediatamente.
Para esse responsável não importava quem coordenava a equipe, quais eram as prioridades estabelecidas ou que outras atividades estivessem em andamento.
Afinal, a situação era crítica. Urgentíssima. Histórica. Nacional, talvez.
Foi então que, numa reunião qualquer, uma frase ficou pairando no ar. Dessas frases que entram por um ouvido e se recusam a sair.
O responsável comentou, quase sem perceber:
– O importante é que esteja disponível em homologação.
A conversa prosseguiu, mas a frase permaneceu sentada à mesa.
Disponível em homologação?
Não em produção?
Não funcionando para os usuários?
Não gerando resultados?
Apenas em homologação?
Alguém pediu uma reunião específica para esclarecer o assunto. Afinal, quando se mobilizam muitas pessoas, sacrificam-se fins de semana e escrevem-se sistemas inteiros, convém saber exatamente qual é o objetivo.
A resposta veio.
Sim.
Bastava que estivesse em homologação.
O sistema seria fotografado.
Uma captura de tela.
Uma imagem.
Um retrato digital.
Essa fotografia seria enviada a alguém para demonstrar que a funcionalidade estava pronta. Pronta, embora ainda não estivesse disponível para uso. Pronta, embora só fosse utilizada em dezembro. Pronta, porque existiria uma tela.
Houve silêncio.
Não o silêncio da concordância.
O outro.
Aquele silêncio que aparece quando a realidade consegue superar a imaginação.
Durante dias, pessoas haviam corrido para produzir uma fotografia.
Não uma funcionalidade em operação.
Não um benefício entregue.
Não um problema resolvido.
Uma fotografia.
Mais tarde, quando chegou o momento de registrar as entregas relevantes do período, surgiu uma dúvida filosófica.
Deveria aquela iniciativa constar na lista de destaques do mês?
Afinal, a funcionalidade não estava em produção. Os usuários não a utilizavam. Nenhum valor havia sido gerado. Nenhum resultado havia sido alcançado.
Mas existia uma foto.
E talvez este seja o verdadeiro espírito de nosso tempo.
Já não importa tanto fazer.
Importa parecer que foi feito.
O sistema ainda não trabalhava.
Mas a fotografia, essa sim, estava pronta dentro do prazo.
Sebastião Marcondes∴
11.06.2026

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