O silêncio era perfeito. Daqueles silêncios raros, quase solenes, que parecem ter peso próprio. O padre falava pausadamente. Os fiéis acompanhavam atentos. Alguns rezavam. Outros apenas ouviam. O ambiente convidava ao recolhimento.
Então aconteceu.
— Hélou Môutou!
A voz metálica atravessou a igreja como um raio. O susto foi geral. Durante alguns segundos ninguém soube de onde vinha a interrupção. O proprietário do aparelho, visivelmente aflito, começou uma busca desesperada pelos bolsos da calça, do paletó, da camisa e, possivelmente, de bolsos que nem existiam.
Antes que encontrasse o telefone, a voz retornou.
— Hélou Môutou!
Algumas crianças riram. Alguns adultos tentaram não rir. O padre interrompeu o sermão por um instante e observou a cena com a paciência que só os padres e os professores parecem possuir. Finalmente o aparelho foi localizado e silenciado. A paz voltou ao templo. Pelo menos até a próxima ligação.
Quem nunca presenciou uma cena semelhante? Pode ser numa igreja, numa palestra, num casamento, numa reunião de condomínio, numa audiência ou até num velório. Existe sempre alguém cujo celular resolve anunciar sua existência justamente no momento em que deveria permanecer invisível. Curiosamente, isso não acontece porque as pessoas sejam mal-educadas. Acontece porque a tecnologia foi entrando em nossas vidas devagarinho, sem pedir licença, até ocupar praticamente todos os espaços.
Primeiro ela era uma ferramenta. Depois virou uma comodidade. Mais tarde tornou-se uma necessidade. Hoje, para muitos, é quase uma extensão do próprio corpo.
E o mais curioso é que não faz muito tempo que o problema nem sequer existia. Durante milhares de anos a humanidade viveu sem telefones celulares. E sobreviveu. Aliás, viveu sem telefones, sem computadores, sem internet e sem energia elétrica. Houve um tempo em que as noites eram iluminadas por velas, lampiões e lamparinas. Quando a eletricidade começou a chegar às cidades, muita gente desconfiou da novidade. Alguns consideravam aquela luz artificial fria e impessoal. Outros acreditavam que os antigos costumes desapareceriam.
Desapareceram mesmo.
Mas ninguém sente saudades de procurar uma vela no escuro toda vez que falta energia.
A mesma história se repetiu inúmeras vezes. As penas deram lugar às canetas. As canetas dividiram espaço com as máquinas de escrever. As máquinas de escrever foram substituídas pelos computadores. As cartas perderam terreno para o e-mail. O telefone fixo perdeu espaço para o celular. Em cada uma dessas transformações houve resistência. Sempre aparece alguém para dizer que a novidade é exagerada, desnecessária ou perigosa. Curiosamente, alguns anos depois, a mesma pessoa não consegue mais viver sem ela. Talvez porque o ser humano seja assim: resiste à mudança até descobrir uma forma de tornar-se dependente dela.
Não faz tanto tempo que a comunicação seguia outro ritmo. Quem quisesse falar com alguém fazia uma ligação. Antes disso, escrevia cartas. Mais antigamente ainda, precisava esperar dias ou semanas por uma resposta. Havia demora, havia distância e havia silêncio.
Hoje carregamos no bolso um aparelho mais poderoso do que os computadores que levaram o homem à Lua. Com ele enviamos mensagens instantâneas, realizamos reuniões, assistimos vídeos, pagamos contas, consultamos mapas, fotografamos o almoço e discutimos política com desconhecidos às duas da manhã. Tudo isso sem sair do sofá. A tecnologia resolveu muitos problemas e criou outros tantos.
Outro dia ouvi a história de uma senhora de noventa anos que pediu aos filhos um celular. Preocupados em facilitar sua adaptação, compraram um aparelho simples, com teclas grandes, visor grande e som alto. Poucos dias depois ela deixou o aparelho cair e ele quebrou. Antes de comprar outro, um dos filhos lembrou que tinha um smartphone guardado numa gaveta e resolveu presenteá-la.
A senhora examinou o aparelho por alguns instantes, abriu um sorriso e perguntou:
— Agora posso ter WhatsApp?
A família caiu na gargalhada. Mas a pergunta dizia muito sobre o mundo em que vivemos. A tecnologia deixou de ser um privilégio dos jovens. Ela pertence a todos. Entrou na vida das crianças, dos adultos, dos idosos e até daqueles que juravam nunca precisar dela.
O curioso é observar como fomos aprendendo a usar os aparelhos sem aprender a conviver com eles. Basta entrar em qualquer restaurante. Há mesas inteiras ocupadas por pessoas que saíram juntas para conversar e passam boa parte do tempo olhando para telas diferentes. Pais observam os filhos pelo celular. Filhos observam os pais pelo celular. Amigos sentados lado a lado trocam mensagens com pessoas que estão a quilômetros de distância enquanto ignoram quem está a poucos centímetros. Nunca estivemos tão conectados. Nunca pareceu tão difícil prestar atenção em quem está presente.
O problema não está no celular, nem no aplicativo, nem na internet. O problema começa quando a ferramenta passa a controlar o dono; quando os risquinhos azuis provocam ansiedade; quando uma notificação interrompe uma conversa; quando uma refeição vira sessão de fotos; quando um grupo de mensagens produz mais ruído do que comunicação; quando alguém acredita em qualquer notícia apenas porque ela chegou pelo telefone.
A energia elétrica não tem culpa se esquecemos de contemplar as estrelas. A caneta não tem culpa pelos erros ortográficos. O computador não tem culpa pelos textos mal escritos. E o celular não tem culpa quando interrompe uma cerimônia religiosa. A verdade é que as ferramentas continuam sendo apenas ferramentas. Nós é que mudamos nossa relação com elas.
Criamos máquinas capazes de aproximar pessoas que estão em continentes diferentes, mas às vezes esquecemos de conversar com quem está sentado ao nosso lado. Recebemos informações em segundos, mas nem sempre encontramos tempo para refletir sobre elas. Estamos permanentemente conectados e frequentemente distraídos.
Talvez a verdadeira evolução tecnológica não esteja nos aparelhos que inventamos, mas na sabedoria necessária para utilizá-los. Afinal, desligar o celular durante uma cerimônia não exige inteligência artificial. Responder uma mensagem algumas horas depois não provoca o fim do mundo. E conversar olhando nos olhos continua sendo uma tecnologia extraordinária: antiga, confiável e, curiosamente, fora de moda.
Mas, pensando bem, talvez daqui a cinquenta anos alguém escreva uma crônica lamentando que os implantes neurais interrompem os cultos religiosos com propagandas personalizadas. E então nós, nostálgicos, diremos:
— Na minha época era melhor, o celular só tocava "Hélou Môutou".

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