Meia dúzia de espanto



Fui ao supermercado com meu sogro numa dessas idas rápidas, quase automáticas, em que a gente empurra o carrinho mais por hábito do que por necessidade. No setor da padaria, ele fez o pedido mais simples do mundo, desses que atravessam gerações sem precisar de legenda:

-  Moça, me vê meia dúzia de pães, por favor.

A atendente, jovem, educada, parou por um segundo. Olhou para ele como quem tenta decifrar uma língua estrangeira.

-  O quê?

- Meia dúzia - repetiu meu sogro, paciente.

- Não sei o que é isso - respondeu ela, com a naturalidade de quem diz não saber onde fica o açúcar.

Meu sogro arregalou os olhos. Não foi um susto teatral, foi um espanto legítimo, quase infantil.

- Você não sabe o que é dúzia? É sério?

Ela confirmou, sem constrangimento algum. Tinha por volta de 22 anos e não sabia o que era dúzia. Nem dúzia, nem meia dúzia. Meu sogro explicou, didático como um professor aposentado que nunca deixou a sala de aula: dúzia é doze, meia dúzia é seis.

Rimos. Rimos porque a cena tinha algo de cômico, quase surreal. Mas o riso veio acompanhado de um incômodo, desses que ficam coçando a cabeça da gente pelo resto do dia.

Como assim alguém não sabe o que é dúzia?

Não sei a escolaridade da moça. Mas era uma grande rede de supermercados, dessas que recebem milhares de currículos, fazem entrevistas, treinamentos, exigem algum nível de instrução. Alguma escolaridade deveria haver ali. Ou será que não?

Saí da padaria pensando em outras coisas aparentemente óbvias. Será que ela sabe ver as horas num relógio de ponteiros? Sabe que, quando o ponteiro grande está no seis, passou meia hora? Isso ainda é ensinado? Ou virou conhecimento arqueológico, como escrever cartas ou decorar tabuadas?

Hoje tudo é bandeja, quilo, pacote fechado. O ovo já vem contado, o pão vem ensacado, a fruta vem pesada. Talvez a dúzia tenha ficado esquecida em alguma gaveta do tempo, junto com a dezena, a centena...

Pensei também no setor onde ela trabalhava. Padaria é número o tempo todo: peso, quantidade, fração. Talvez estivesse melhor em outro lugar. Será que existe algum tipo de teste vocacional no supermercado para decidir onde cada pessoa vai trabalhar? Emprego ela merecia, era simpática, educada, atendeu bem. Mas, claramente, a questão matemática não era para ela. No caixa, quem sabe? Embora ali também haja seus mistérios modernos: aqueles atendentes que preferem devolver dois reais de troco para uma nota de dez, quando a compra custa oito, e entram em curto-circuito se você entrega treze para receber cinco.

Mais tarde, ainda incomodado, resolvi testar a realidade. Perguntei ao meu sobrinho, dez anos, aluno de escola particular, tradicional, com unidades espalhadas por todo o país:

-  Quanto é uma dúzia?

Ele pensou, pensou… não soube.

-  E uma dezena?

Também não.

Ali o riso não veio. Veio um silêncio pesado, desses que dizem mais do que qualquer resposta errada.

O que está acontecendo?

Talvez estejamos formando gerações extremamente hábeis em deslizar o dedo na tela, mas inseguras diante de conceitos simples. Talvez o mundo tenha acelerado tanto que deixou para trás coisas que pareciam pequenas demais para serem preservadas. Ou talvez estejamos apenas colhendo os frutos de um ensino que ensina a passar de ano, mas não a compreender o básico da vida cotidiana.

No fim das contas, saí do supermercado com seis pães na sacola e uma dúzia de perguntas na cabeça. E nenhuma delas tinha resposta simples.

Sebastião Marcondes∴
08/01/2026

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