O futuro passa de ônibus


Choveu o dia inteiro. Do meu local de trabalho, de onde se avista Brasília quase por completo, a cidade parecia um grande borrão cinza, envolta em nuvens baixas e numa chuva persistente, dessas que não fazem barulho. Era como se o céu tivesse decidido não ir embora.

Saí do trabalho às dezoito horas. A chuva, agora fina, me recebeu sem pressa. Abri o guarda-chuva e, protegido, caminhei até a rodoviária sem me molhar. O ônibus que passa na porta de casa chegou junto comigo, como se também tivesse combinado aquele encontro. Já havia uma fila, mas o último lugar ainda me esperava.

Sentei e comecei a ler, deixando o texto me distrair do dia longo. Em dado momento, senti que o ônibus ganhava velocidade demais para um horário de pico. Levantei os olhos do livro e olhei pela janela. A EPTG estava completamente parada, a chuva deixou o trânsito ainda pior do que outros dias. Um mar de carros imóveis, cada um com uma, talvez duas pessoas, nervosos por gastar uma hora para percorrer quinze quilômetros.

Dentro do ônibus, porém, a realidade era outra. O ônibus seguia firme pela via expressa, exclusiva. Em vinte e cinco minutos, eu estava em casa, seco, tranquilo, quase em silêncio. A chuva ainda caía, mas já não parecia pesada.

É nessas horas que penso como tudo poderia ser diferente. Menos buzinas, menos tempo perdido, menos solidão sobre quatro rodas. Mais ônibus, mais investimento, mais inteligência coletiva. Às vezes, o futuro não pede invenções mirabolantes. 

Sebastião Marcondes
17.12.2025

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