Saí de casa de manhã com o passo pesado e o coração atrasado. Ia para o trabalho, mas deixava para trás algo muito mais importante: minha esposa, sozinha, no dia do aniversário dela. O beijo de despedida foi rápido, quase culpado, e a porta se fechou com um som que parecia maior do que deveria ser.
No ônibus, tentei me distrair abrindo o livro "Meu Legado". Li um capítulo que falava de um garoto de 14 anos, vencido por um câncer nos ossos. O que mais me marcou, porém, não foi a morte, mas a vida que o cercou até o fim. Amigos, familiares, médicos, todos se empenharam em fazê-lo feliz. Até mesmo no hospital, o destino pareceu ser tratado com carinho. Fechei o livro por um instante, engolindo um nó na garganta.
Levantei os olhos e fiquei olhando a rua passar pela janela, misturando aquelas palavras com meus próprios pensamentos. Foi então que vi um jovem sentado no espaço reservado a cadeirantes. Não devia ter mais que vinte e cinco anos. Bonito, forte, musculoso, vestia uma camisa que parecia ter sido escolhida com cuidado. Havia nele uma leveza no rosto, um sorriso tranquilo, enquanto observava o caminho do ônibus, como quem aprecia o mundo sem pressa.
Demorei alguns segundos para perceber o que, à primeira vista, meus olhos se recusaram a aceitar. Ele não tinha pernas. Não havia sequer tocos. Era apenas tronco. E, ainda assim, ou talvez por isso, ali estava ele, pleno, sereno, quase luminoso.
Naquele instante, o peso que eu carregava mudou de forma. A tristeza por deixar minha esposa sozinha continuava, mas ganhou outro contorno. Percebi que a vida, apesar de todas as ausências que impõe, insiste em nos oferecer exemplos silenciosos de coragem e gratidão. O ônibus seguiu, eu desci no meu ponto, mas aquela imagem ficou comigo. Um lembrete simples de que, muitas vezes, não é o que nos falta que nos define, e sim a forma como escolhemos olhar o caminho que passa diante de nós.
Sebastião Marcondes∴
16/12/2025

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